Ficha tcnica:
Ttulo: Crystal - livro 2 da srie rfs
Ttulo Original: Crystal
Autor: V. C. Andrews
Srie: rfs
Gnero: Romance
Editora: Bertrand Brasil
Digitalizao: Vtor Chaves
Reviso: Marcilene Chaves
Numerao de pginas: Cabealho

Sinopse

Inteligente e destemida, Crystal vai descobrir que novos pais podem significar novas preocupaes...
Quando os Morris escolhem Crystal entre todos os meninos e meninas do orfanato, ela sente a maior felicidade, pois finalmente ter uma casa que poder chamar de 
sua. Karl Morris, seu novo pai, gosta de matemtica tanto quanto ela gosta de cincia. Ele sente o maior orgulho por Crystal ser uma excelente aluna. Thelma, sua 
nova me, faz com que ela se sinta realmente desejada, pela primeira vez na vida. Embora Thelma parea mais interessada pelas novelas da televiso do que pela vida 
real, Crystal sente no fundo do corao que aquela casa pequena e arrumada ser um lar de verdade.
Crystal fica ainda mais satisfeita quando os Morris aprovam seu primeiro namorado. Mas descobrir em breve que, em seu novo lar, a tristeza foi banida para o fundo 
de um armrio... o que significa que ningum estar preparado quando uma tragdia chocante bater  sua porta.
Capa: Silvana Mattievich

V. C. ANDREWS

Crystal - Vol. 2 - Srie rfs

Traduo A.B. Pinheiro de Lemos
BERTRAND BRASIL
Copyright (r) 1998 by the Virgnia C. Andrews Trust and The Vanda Partnership.
Publicado mediante contrato com editor original, Pocket Books, New York.
Depois da morte de Virgnia Andrews, a famlia Andrews passou a trabalhar com uma escritora escolhida com o maior cuidado, a fim de organizar e completar suas histrias, 
alm de criar romances adicionais, como este, inspirado por seu gnio na fico.
Este livro  uma obra de fico. Nomes, personagens, lugares e incidentes so produtos da imaginao da autora ou usados de maneira fictcia. Qualquer semelhana 
com eventos reais, como locais ou pessoas, vivas ou mortas,  mera coincidncia.
Ttulo original: Crystal
Capa: Silvana Mattievich, usando ilustrao de Lisa Falkenstern
Editorao: Art Line
1999
Impresso no Brasil/Printed in Brazil
CIP-BRASIL. CATALOGAO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
A581c        Andrews, V. C. (Virgnia C.)
Crystal V. C. Andrews; traduo A. B. Pinheiro de Lemos. - Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999
160p. - (Srie rfs; 2)
        Traduo de: Crystal Continuao de: Borboleta ISBN 85-286-0735-6
        1. Romance norte-americano. I. Lemos, A. B. Pinheiro de Lemos (Alfredo Barcelos Pinheiro de), 1938-. II. Ttulo. III. Srie
99-1280        CDD - 813 CDU - 820(73)-3
Todos os direitos reservados pela: BCD UNIO DE EDITORAS S.A.
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No  permitida a reproduo total ou parcial desta obra, por quaisquer meios, sem a prvia autorizao por escrito da Editora.
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Prlogo

Uma noite o sr. Philips esqueceu as chaves. Foi simples assim: Embora eu tivesse apenas pouco mais de onze anos, j ajudava no escritrio, arquivando pedidos de 
compras, recibos, ordens de consertos. Eu deixara o relgio de Molly Stuart no banheiro do sr. Philips, quando o tirara para lavar as mos. Eu no tinha um relgio, 
e Molly me emprestava o dela de vez em quando. Quando viu que eu no o tinha no pulso, ela me perguntou onde estava. S ento me lembrara. Isso aconteceu depois 
do jantar, quando j nos encontrvamos nos quartos, fazendo os deveres de casa. Eu disse a Molly para no se preocupar. Sabia onde deixara o relgio. S que ela 
foi ficando cada vez mais irritada, at que o sangue afluiu para o rosto. Tinha certeza de que algum j o roubara quela altura, porque a porta da sala do sr. Philips 
nunca estava fechada. Por isso, deixei meu quarto e desci apressada. Entrei na sala, acendi a luz, fui at o banheiro. L estava o relgio, na pia, onde eu o havia 
deixado. Virei-me para ir embora. Foi nesse instante que avistei as chaves do sr. Philips em cima da mesa. Sabia que eram as chaves dos arquivos secretos, os que 
continham as informaes sobre cada rfo. Os outros
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viviam me perguntando se eu j vira os arquivos enquanto trabalhava no escritrio. Isso nunca acontecera.
Meu corao disparou. Olhei para a porta e de novo para aquelas chaves mgicas. Era quase impossvel para um rfo descobrir qualquer coisa a respeito de seu passado 
biolgico, pelo menos at completar dezoito anos. S me haviam dito que minha me ficara doente demais para cuidar de mim e que eu no tinha pai.
Jamais fizera uma coisa desonesta em toda a minha vida, mas aquilo era diferente, pensei. No era roubar. Seria apenas pegar uma coisa que me pertencia por direito: 
o conhecimento do meu passado. Sem fazer barulho, fechei a porta da sala. Fui at a mesa, peguei as chaves, encontrei a que abria as gavetas contendo os arquivos 
secretos.
Foi estranho, como fiquei parada ali, com medo de tocar no arquivo que tinha meu nome na etiqueta. Medo de violar uma regra, ou medo de descobrir tudo a meu respeito? 
Mas acabei reunindo coragem suficiente e tirei a pasta da gaveta. Era mais grossa do que eu imaginara. Apaguei a luz da sala, para no atrair qualquer ateno. Sentei 
no cho, junto do banheiro, com a porta entreaberta. Uma rstia de luz proporcionava iluminao suficiente para eu ler o que havia na pasta.
As primeiras pginas continham informaes que eu j conhecia: histria mdica, registros escolares. Mas as ltimas pginas abriram as portas escuras do meu passado 
e revelaram informaes que ao mesmo tempo me surpreenderam e assustaram.
Segundo o relato ali, minha me, Amanda Perry, fora diagnosticada manaco-depressiva ainda na adolescncia. Acabara sendo internada aos dezessete anos, depois de 
reiterados esforos para cometer suicdio, uma vez cortando os pulsos e duas vezes tomando uma overdose de plulas para dormir.
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Continuei a ler e descobri que minha me engravidara de um atendente quando se encontrava numa instituio de tratamento mental. Ao que parecia, nunca haviam descoberto 
quem fora o homem. Por isso, conclu que algum degenerado era meu pai, a menos que preferisse acreditar que minha me e o atendente haviam tido uma ligao romntica 
e maravilhosa, entre terapias de drogas, banhos frios e tratamentos de choque eltrico.
Seja como for, ao descobrirem que minha me estava grvida, algum tomou a deciso oficial de no me abortar. Depois que nasci, obviamente meus avs paternos e maternos 
no quiseram saber de mim. E  claro que o Atendente Degenerado no se apresentou para me reivindicar. Assim, tornei-me imediatamente uma tutelada do Estado. Os 
relatrios no diziam quem me dera o nome de Crystal. Gostava de pensar que era a nica coisa que minha pobre me fora capaz de me dar. Eu no tinha mais nada, nem 
mesmo a menor idia de quem eu era, at dar uma olhada naquela pasta.
Encontrei um comunicado lacnico sobre a morte de minha me aos vinte e dois anos de idade. Sua ltima tentativa de acabar com a prpria vida fora bem-sucedida. 
Eu nunca a conheceria, mesmo daqui a alguns anos, quando me tornasse independente.
Lembro que as revelaes fizeram minhas mos tremer, deixaram-me com uma sensao de vazio no fundo do estmago. Herdaria os problemas mentais de minha me? Herdaria 
a maldade de meu pai? Guardei a pasta no lugar, tranquei o arquivo, larguei as chaves na mesa e sa do escritrio. Tive de ir direto ao nosso banheiro, porque tinha 
a sensao de que poderia vomitar a qualquer instante.
Consegui manter o jantar no estmago, mas lavei o rosto com gua fria para me acalmar. Contemplei-me no
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espelho, avaliando os olhos, a boca,  procura de algum sinal de maldade. Sentia-me como o Doutor Jekyll em busca de um vislumbre de Mister Hyde, da histria de 
O mdico e o monstro. Daquele dia em diante, passei a ter pesadelos. Via-me mentalmente doente, to desequilibrada que me internavam em alguma clnica para sempre.
Suponho que seria natural que qualquer psiclogo que soubesse do meu passado especulasse se eu no partilhava algumas caractersticas com meus pais. Pelo que lera, 
deduzi que minha me tinha exploses freqentes na escola, uma aluna muito difcil para todos os professores. Vivia se metendo em encrencas. Nunca fui assim, mas 
li recentemente que esse tipo de comportamento  considerado um pedido de ajuda, da mesma forma que a tentativa de suicdio.
Com tantos pedidos de socorro, o mundo parecia um vasto oceano, com muitas pessoas se afogando, enquanto os salva-vidas ficavam escolhendo a seu critrio ajudar 
esta ou aquela pessoa. Claro que os mais ricos sempre eram salvos, ou no mnimo lhes jogavam uma bia. As pessoas como eu eram metidas em instituies de tratamento 
mental, lares coletivos provisrios, orfanatos e prises. ramos varridas para baixo do tapete. O que me levava a especular como algum podia andar por cima.
Nunca contei a ningum o que descobrira,  claro, mas passei a compreender por que to poucos pais em potencial demonstravam algum interesse por mim. Provavelmente 
recebiam informaes sobre o meu passado e decidiam no correr o risco com algum como eu.
Uma ocasio, quando eu me encontrava em outro orfanato, sentei no jardim para ler O dirio de Anne Frank. (Sempre fui duas ou trs sries acima das outras crianas 
da minha idade no curso de leitura.) Sbitamente,
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senti uma sombra se deslocar por cima de mim. Levantei os olhos para ver um balo flutuando ao vento, o barbante pendendo como uma cauda. Alguma criana deixara 
escapulir o balo. Agora, vagava a esmo, sem estar ligado a ningum, condenado a nunca mais voltar para o seu dono. Logo desapareceu por trs dos telhados. Pensei 
que todos ali ramos assim, bales que algum soltava, de propsito ou involuntariamente, pobres almas perdidas,  deriva no vento, esperando que outra mo nos pegasse 
e trouxesse de volta ao solo.
Mais trs anos passaram sem que eu fosse adotada ou transferida para um lar provisrio. Ainda ajudava o sr. Philips no escritrio. H cerca de um ano, ele comeou 
a me chamar de Pequena Miss Eficincia. No me importava, mesmo quando ele me usava para repreender seus assistentes. Sempre dizia coisas como "Por que no podem 
ser to responsveis quanto Crystal?" Dizia isso, de vez em quando, at para sua secretria, a sra. Mills.
Ela dava sempre a impresso de que estava se afogando em folhas de papel-carbono. Tinha os dedos azuis ou pretos, por causa das fitas, cartuchos de tinta e almo-fadas 
de carimbo que precisava mudar. Pela manh, chegava ao trabalho toda arrumada, como uma obra de arte clssica, sem um nico fio dos cabelos grisalhos azulados fora 
do lugar, a maquilagem perfeita, as roupas limpas e bem passadas. Ao final do dia, no entanto, os cabelos sempre pendiam sobre os olhos, a blusa em geral exibia 
alguma mancha, talvez duas, o batom de alguma forma se espalhara pelas faces. Virava uma obra de arte abstrata. Sempre se mostrava feliz ao me receber e apreciava 
meu trabalho, que de outra forma ela prpria teria de fazer.
Para algum da minha idade, conheo muita coisa sobre a psicologia humana. Comecei a me interessar
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depois que li sobre minha me. Penso agora que talvez um dia me torne mdica. De qualquer modo,  sempre bom saber tudo sobre psicologia.  uma coisa bem conveniente, 
ainda mais em orfanatos.
Mas nem sempre  uma vantagem ser mais inteligente ou mais responsvel do que as outras pessoas. O que  particularmente verdadeiro com rfos. Quanto mais desamparado 
voc parece, maiores as suas possibilidades de adoo. Se voc d a impresso de que  capaz de cuidar de si mesmo, quem vai querer adot-lo? Ou pelo menos essa 
 outra das minhas teorias sobre os motivos pelos quais eu era uma prisioneira do sistema h tanto tempo. Os pais em potencial no gostam de se sentir inferiores 
 criana que vo adotar. J fui testemunha disso.
Apareceu certa vez um casal que me pediu expressamente: queriam uma criana que fosse mais velha. A mulher, cujo nome era Chastity, exibia um sorriso tolo. O marido 
a chamava de Chs, e ela o tratava por Arn, de Arnold. Creio que acabariam me chamando de Crys. Tinham dificuldades para completar as palavras. O mesmo problema 
ocorria com as frases, sempre deixando uma parte em suspenso, como no momento em que Chs me perguntou:
- O que voc quer ser quando...
- Quando o qu?
- Ficar mais velha. Depois que se formar em...
- Escola secundria, servio militar, escola de secretariado ou curso de computador?
Eu sentira uma averso imediata aos dois. A mulher ria demais, enquanto o marido dava a impresso de que queria estar em algum outro lugar no momento em que entrava 
na sala.
- Isso mesmo - disse ela, rindo.
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- Acho que quero ser mdica. Mas tambm posso Ser uma escritora. No tenho certeza. O que voc quer ser?
Ela piscou vrias vezes, com um sorriso de absoluta confuso.
- O qu?
- Quando voc...
Olhei para Arn, que sorriu. J o sorriso de has murchou como uma flor e pouco a pouco evaporou por completo. Seus olhos se tornaram ameaadores e logo se encheram 
com uma energia nervosa. No deu para contar quantos olhares ansiosos ela lanou na direo da porta.
Os dois se mostraram bastante aliviados quando a entrevista terminou. No tive outra entrevista at uma semana atrs, mas fiquei feliz em conhecer Thelma e Karl 
Morris. Aparentemente, minha origem no os assustava, nem a minha precocidade os irritava. Depois, o sr. Philips me disse que eu era exatamente o que eles queriam: 
uma adolescente que prometia no causar qualquer problema, que no exigiria muito de suas vidas, que tinha alguma independncia e gozava de boa sade.
Thelma parecia convencida de que todos os danos que eu sofrera como rf seriam corrigidos depois de algumas semanas em sua casa. Adorei seu otimismo distorcido. 
Era uma mulher pequena, de vinte e tantos anos, cabelos castanhos-claros um pouco crespos, olhos tambm castanhos-claros, to brilhantes e inocentes quanto os de 
uma criana de seis anos.
Karl era apenas uns poucos centmetros mais alto, cabelos lisos castanhos-escuros e olhos castanhos sem brilho. Parecia muito mais velho, embora tivesse apenas trinta 
e poucos anos. O sorriso era suave e cordial, assentando em seu rosto rechonchudo como morangos
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no creme. Era corpulento. Tinha mos pequenas, mas dedos grossos.
Ele era contador, enquanto Thelma anunciou que era dona-de-casa. Mas ela havia decidido h muito tempo que ser dona-de-casa era tambm trabalho, pelo qual deveria 
receber um salrio. Thelma at tinha aumentos nos anos bons. No conseguiam parar de falar sobre si mesmos. Era como se quisessem expor suas vidas inteiras em um 
nico encontro.
A melhor coisa que eu podia dizer a respeito dos Morris era que no havia absolutamente nada de sutil, dissimulado ou ameaador neles. O que se via era o que havia. 
E gostei disso. Fez com que eu me sentisse  vontade. Houve momentos durante a entrevista em que mais parecia que eu  que deveria decidir se os adotaria.
- Tudo  srio demais aqui - comentou Thelma, ao final da reunio. Ela fez uma careta, contraindo os lbios numa expresso desaprovadora. - No  possvel que uma 
pessoa jovem considere este lugar um lar. No ouvi nenhuma risada. Nem vi qualquer sorriso.
Subitamente, ela prpria se tornou muito sria, inclinou-se para a frente e sussurrou:
- Ainda no tem um namorado, no ? Eu detestaria interromper um romance desabrochando.
- Seria muito difcil - respondi. - A maioria dos garotos aqui  muito imatura.
Thelma gostou da resposta e demonstrou alvio imediato.
- Ainda bem. Ento est tudo resolvido. Voc ir para casa conosco. Nunca mais falaremos de qualquer coisa desagradvel. No acreditamos em tristeza..-se voc no 
pensa nas coisas ruins da vida, vai descobrir que simplesmente elas desaparecem. Espere s para ver.
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Eu deveria ter imaginado o que isso significava. Mas por uma vez, em minha curta vida, decidi parar de analisar as pessoas e apenas desfrutar a companhia de algum, 
ainda mais sendo uma mulher que queria ser minha me.
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Um novo comeo

Ir para casa com os Morris foi como participar de uma excurso guiada por suas vidas num nibus de turismo. Eles tinham um seda razovel, que fora escolhido, segundo 
Karl, por sua economia de combustvel e pela alta classificao nos relatrios de defesa dos consumidores.
- Karl toma as decises sobre tudo o que compramos - explicou Thelma, com uma risada jovial, a mesma que pontuava quase tudo o que ela dizia. - Ele diz que um consumidor 
informado  um consumidor protegido. No se pode acreditar na propaganda. Os anncios, especialmente os comerciais de televiso, contm uma poro de desinformaes. 
No  mesmo, Karl?
- , sim, querida - concordou Karl.
Eu estava sentada no banco de trs. Thelma manteve-se meio virada, para poder conversar comigo durante todo o percurso at a casa deles - minha nova casa, meu lar 
- em Wappingers Falls, Estado de Nova York.
- Karl e eu fomos namorados desde a infncia. J lhe contei isso?
Ela continuou antes que eu pudesse dizer que sim.
- Comeamos a namorar na dcima srie. Quando Karl foi para a universidade, permaneci fiel. Ele tambm
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continuou fiel. Depois que se formou e foi contratado pela IBM, planejamos o casamento. Karl ajudou meus pais a tomarem todas as providncias, da escolha do melhor 
lugar at as flores. No foi mesmo, Karl?
-  verdade, querida - respondeu ele, acenando com a cabea, sem desviar os olhos da estrada.
- Normalmente, Karl no gosta de ter longas conversas no carro quando est dirigindo - explicou Thelma, olhando para ele e sorrindo. - Diz que as pessoas esquecem 
que dirigir um carro  coisa que exige uma ateno total.
- Ainda mais hoje em dia, com tantos carros na estrada, tantos motoristas adolescentes e idosos - acrescentou Karl. - Esses dois grupos etrios so responsveis 
por mais de sessenta por cento de todos os acidentes.
- Karl tem todos os tipos de estatsticas como essa na cabea - informou Thelma, orgulhosa. - Ainda na semana passada pensei em trocar nosso velho fogo a gs por 
um eltrico. Karl converteu BTUs...  isso mesmo, Karl? BTUs?
- , sim.
- BTUs em centavos de custo e demonstrou que o fogo a gs era mais eficiente. No  maravilhoso ter um marido como Karl, que pode impedi-la de tomar as decises 
erradas?
Sorri e olhei pela janela. O orfanato no ficava a mais que uns oitenta quilmetros do lugar em que meus novos pais viviam, mas eu nunca viajara tanto para o norte. 
Alm da participao em algumas excurses da escola, no conhecia muitos outros lugares. S deixar o orfanato e percorrer trinta quilmetros de carro j era uma 
aventura.
O vero estava no fim e os ventos mais frios do
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outono comeavam a soprar do norte. As folhas estavam comeando a ficar avermelhadas e alaranjadas. Sempre que eu podia ver a distncia, contemplando as montanhas 
cobertas por bosques, achava que a ondulao de cores era de uma beleza espetacular. E ainda por cima o dia era claro e ensolarado. O cu era de um azul profundo, 
as nuvens sopradas pelo vento se esticavam at ficarem quase como gaze. Ao sul, um avio transformar-se num ponto prateado e depois desaparecera nas nuvens. Eu me 
sentia feliz, transbordando de esperana. Teria um lar, uma casa que chamaria de minha, outras pessoas com que me preocupar alm de mim... e que tambm, assim esperava, 
se preocupariam comigo. Era tudo muito simples, coisas em que a maioria das pessoas nem pensava duas vezes, mas maravilhoso, novo e precioso para rfos como eu.
- Karl  o mais velho de trs irmos e o nico casado. O irmo do meio, Stuart,  vendedor de uma fbrica de aparelhos de ar condicionado em Albany, enquanto o caula, 
Gary, acaba de se formar numa escola de culinria em Poughkeepsie, onde o pai de Karl vive. Gary foi contratado para trabalhar num navio de cruzeiros. Por isso, 
quase no o vemos, nem temos muitas notcias dele. Karl e seus irmos no so muito separados na idade, mas nem por isso so ntimos. Ningum , na famlia. No 
 mesmo, Karl?
Ele quase virou a cabea para fit-la. Iniciou o movimento, mas parou de repente, quando um carro entrou na estrada, cerca de cinqenta metros  frente, obrigando-o 
a diminuir a velocidade.
- Se eles no se falassem pelo telefone de vez em quando, nem saberiam quem ainda existe na famlia e quem no existe mais. O pai de Karl ainda  vivo, mas a me 
faleceu... h dois anos, Karl?
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- Um ano e onze meses, amanh - murmurou Karl, numa resposta mecnica.
- Um ano e onze meses - ela repetiu, como se estivesse traduzindo.
Ou seja, tenho dois tios e um av pelo lado de Karl, pensei. Antes que eu pudesse perguntar sobre o lado de Thelma, ela tratou de fornecer a informao:
- No tenho irmos nem irms. Minha me no deveria ter nenhum filho. Teve cncer no seio quando tinha apenas dezessete anos, e os mdicos aconselharam-na a no 
ter filhos. Mas j com trinta anos ela ficou grvida de mim. Meu pai tinha quarenta e um anos na ocasio. Agora minha me tem cinqenta e oito e meu pai sessenta 
e nove. Aposto que est querendo saber por que no tivemos filhos. Isto , antes de voc.
- No  da minha conta - murmurei.
- Claro que . Tudo que nos diz respeito  da sua conta. Vamos ser uma famlia. Por isso, temos de partilhar e ser francos uns com os outros. No  mesmo, Karl?
- , sim - concordou ele, sinalizando que ia mudar de faixa e ultrapassar o carro  frente.
- A contagem de esperma de Karl  muito baixa - revelou Thelma, com um sorriso, como se sentisse a maior satisfao por isso.
- No sei se devemos conversar a respeito disso, Thelma.
A nuca de Karl ficou vermelha de embarao.
- Claro que podemos. Ela j tem idade suficiente e provavelmente sabe tudo o que h para saber. As crianas de hoje so muito adiantadas. Como podem deixar de ser, 
com tanta coisa aparecendo na televiso? Costuma assistir televiso com freqncia, Crystal?
- No.
- Ahn...
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O excitamento comeou a se desvanecer do rosto de Thelma, pela primeira vez desde que nos conhecramos. Os olhos pareciam pequenas lanternas com a pilha fraca. Mas 
depois ela pensou em alguma coisa e tornou a sorrir.
- Deve ser porque no tinha muita oportunidade numa casa com tantas crianas. Mas tentamos ter filhos. Assim que Karl decidiu que tnhamos a base financeira necessria, 
bem que tentamos. No foi mesmo, Karl?
Ele acenou com a cabea.
- Nada aconteceu, por mais que planejssemos. Eu usava um termmetro para tirar minha temperatura, calculava os dias no calendrio, at preparei algumas noites romnticas. 
- Thelma corou, deu de ombros. - Nada aconteceu. E pensvamos que estvamos errando em alguma coisa. Mire melhor, eu costumava dizer. No  mesmo, Karl?
- Thelma, voc est me deixando embaraado.
- Ora, isso  bobagem. Somos uma famlia. No podemos ficar embaraados com essas coisas.
A simplicidade e franqueza com que Thelma falava sobre os detalhes mais ntimos de sua vida me fascinavam.
- Karl leu sobre o assunto e aprendeu que deveria manter o saco sempre fresco - continuou ela, tornando a se virar para mim. - Evitava usar qualquer coisa apertada, 
abstinha-se de tomar banhos quentes, fazia tudo para evitar o calor, especialmente nas ocasies em que tentaramos fazer um beb. At espervamos mais tempo entre 
as ocasies, porque os perodos de abstinncia sexual em geral aumentam o volume e a potncia do esperma. No  mesmo, Karl?
- No precisa entrar nos menores detalhes, Thelma.
- Claro que preciso. Quero que Crystal compreenda.
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Li uma revista outro dia, Pais Modernos ou outro nome parecido. Um artigo dizia que mes e filhas em particular devem ser honestas e francas em tudo, para poderem 
desenvolver a confiana. Ela fez uma pausa.
- Onde  mesmo que eu estava? Ah, sim, o volume e a potncia do esperma. Mas quando nada deu certo, resolvemos procurar um mdico. Voc sabia que o homem mdio produz 
de 120 milhes a 600 milhes de espermatozides numa nica ejaculao?
- Voc tem problemas com outros fatos e estatsticas, Thelma - interveio Karl, a voz gentil. - Como  possvel que no esquea isso?
- No sei. Acho que no  fcil esquecer. - Ela deu de ombros outra vez. - Descobrimos que Karl estava abaixo dessa contagem, no importava o que fizesse. Ainda 
tentamos muitas vezes,  claro, at que finalmente decidimos adotar. Para dizer a verdade, tive a idia com Vibraes do corao, de Torch Summers. Conversei com 
Karl, que concordou que seria uma boa idia.
Thelma fez uma pausa.
- Mas cuidar de um beb no  uma tarefa fcil. Voc tem de acordar de madrugada. Fica cansada demais para fazer qualquer coisa no dia seguinte, at mesmo para assistir 
televiso. Foi por isso que decidimos procurar uma criana mais velha... e encontramos voc.
- Nosso problema de conceber um beb no  to excepcional assim - declarou Karl, durante o primeiro momento de silncio. - A infertilidade era considerada no passado 
um problema basicamente da mulher. Mas agora se sabe que o problema  do homem em trinta e cinco por cento dos casos.
- Karl se sente triste, mas eu no o culpo - comentou Thelma, numa voz um pouco acima de um sussurro. -  como acontece em A segunda chance do amor, de Amanda Fairchild. 
J leu esse livro? Sei que l muito.
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- Nunca ouvi falar.
- Acho que ocupou o primeiro lugar na lista dos livros romnticos mais vendidos durante quatro meses, no ano passado. O homem apaixonado por April tem o mesmo problema 
de Karl, mas s descobre depois que ela engravida, obviamente de outro.  muito triste no final, quando April morre no parto.
Os olhos de Thelma ficaram marejados de lgrimas. Mas ela logo pulou no banco e sorriu.
- No vamos pensar em coisas tristes. Hoje  um grande dia para todos ns. Vamos jantar num restaurante esta noite. Certo, Karl?
- Certo. Pensei em irmos ao Sea Shell. Gosta de frutos do mar, Crystal?
- No comi muitas vezes, mas gosto bastante.
- Normalmente no comemos fora - declarou Thelma. - No  prtico. Mas Karl acha que o Sea Shell  o que oferece mais pelo seu dlar.
- Lagosta e camaro so caros nos restaurantes, mas eles oferecem um bom prato misto, com mais salada e po. Gosto desses pratos mistos. Tm um bom preo. E voc 
vai gostar tambm das sobremesas. Aposto que adora bolo de chocolate.
-  a minha sobremesa predileta - admiti. Toda aquela conversa sobre comida estava fazendo meu estmago roncar.
- Temos muito que aprender uma sobre a outra - comentou Thelma. - Quero conhecer todas as suas coisas prediletas, como as cores prediletas, os artistas de cinema 
prediletos, tudo que voc aprecia. Espero termos muitas coisas prediletas em comum. Mas mesmo se no tivermos, no far a menor diferena.
Ela acenou com a cabea vigorosamente, dando a impresso de que queria assegurar isso tanto a si mesma quanto a mim.
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Pouco mais de uma hora depois entramos numa rua residencial. Paramos numa casa pequena, em estilo de rancho, com paredes num tom cinza-claro, persianas de alumnio 
em cinza-escuro, uma calada atravessando um gramado, com sebes nos lados e um bordo vermelho  esquerda. Uma caixa de correspondncia grande, de alumnio, tinha 
o nome MORRIS e o endereo inscrito por baixo.
- Lar, doce lar - murmurou Thelma, enquanto a porta da garagem se levantava.
Entramos na garagem, que parecia mais arrumada do que alguns dos quartos no orfanato. Tinha prateleiras na parede do fundo. Tudo nelas estava organizado, com etiquetas 
indicativas. O cho da garagem tinha at um carpete.
Karl ajudou a carregar minha bagagem e a caixa com livros. Segui-os por uma porta que levava direto  cozinha.
- Foi Karl quem projetou nossa casa - explicou Thelma. - Concluiu que era prtico ir direto da garagem para a cozinha, a fim de podermos tirar as compras do carro 
e guardar nos armrios com a maior facilidade.
Era uma cozinha pequena, mas bem arrumada e limpa. Havia um canto com uma mesa  direita, uma janela saliente que dava para um quintal nos fundos, cercado. O gramado 
ali no era muito maior que o gramado na frente.
Por cima da mesa havia um quadro de cortia, com bilhetes presos, assim como um calendrio, com datas circuladas. Na porta da geladeira havia um quadro com m, 
em que se lia uma lista dos alimentos que precisavam ser repostos.
- Por aqui - disse Karl.
Deixamos a cozinha e atravessamos um pequeno corredor, que levava primeiro  sala de estar e  porta da frente. Havia um pequeno vestbulo, com um closet
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para casacos.  esquerda do vestbulo havia outra sala, com estantes cobrindo as paredes, sofs e poltronas virados para o enorme aparelho de televiso. Logo depois 
ficava a sala de jantar. Os mveis eram coloniais.
Meu quarto no era muito maior do que o quarto que ocupava no orfanato, mas tinha um papel de parede florido, cortinas transparentes de algodo branco, uma escrivaninha 
com um armrio em cima, duas camas com almofadas e colcha em rosa e branco. Havia um closet  esquerda e outro menor  direita.
- Pode usar este closet menor para guardar outras coisas que no roupas - sugeriu Karl.
Parei diante da escrivaninha e abri a porta do armrio. Havia um computador ali.
- Surpresa! - exclamou Thelma, batendo palmas. - Compramos para voc h apenas dois dias. Karl fez um levantamento de preos e descobriu o melhor negcio.
-  o mais moderno no mercado - acrescentou Karl. - Tambm providenciei a ligao com a Internet. Assim, poder fazer as pesquisas em seu quarto quando comearem 
as aulas, dentro de algumas semanas.
- Obrigada - murmurei, emocionada. Ningum jamais me comprara qualquer coisa cara.
Por um momento, mal consegui respirar. Passei as pontas dos dedos pelas teclas, a fim de verificar se era mesmo real.
- Mas no fique como aquelas crianas de que ouvimos falar - advertiu Thelma -, passando todo o tempo sozinhas a olhar para a tela do computador. Queremos ser uma 
famlia e passar um bom tempo juntos, durante o jantar, assistindo televiso.
- Eu tambm. - Balancei a cabea, excitada demais para prestar ateno a qualquer coisa que ela dissesse. - Obrigada.
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- O prazer  nosso - declarou Karl.
- Vou ajud-la a arrumar suas roupas. Veremos que coisas novas vai precisar de imediato. Faremos uma lista e Karl nos dir onde  melhor comprar. Certo, Karl?
- Claro.
- Oh, no, no! - exclamou Thelma de repente, levando a mo ao corao.
O meu parou por um instante. Eu j fizera alguma coisa errada?
- Qual  o problema? - perguntou Karl.
- Olhe s para a hora! - Ela acenou com a cabea para o pequeno relgio na mesa do computador. - Passa de trs horas. Estou perdendo Coraes e flores.  hoje que 
Ariel vai descobrir se Todd  o pai de seu filho. Voc assiste essa, Crystal?
Olhei para Karl, em busca de ajuda. No tinha a menor idia do que ela falava.
- Ela se refere a uma novela da televiso. Como Crystal poderia acompanhar essa, Thelma? Estaria voltando para o orfanato ou ainda na escola quando a novela vai 
ao ar.
- Ah, tinha esquecido. Sabe o que fao quando vou perder um captulo? Gravo tudo. S que hoje esqueci de ligar o vdeo, com toda a emoo. Importa-se de esperar 
um pouco, querida? Eu a ajudarei a arrumar suas coisas assim que a novela terminar.
- No tem problema. - Pus uma mala na cama e abri o fecho. - No h mesmo muito para fazer.
- No, no, Crystal querida! - Thelma pegou minha mo. - Venha comigo. Assistiremos  novela juntas, e depois cuidaremos do seu quarto.
Olhei para Karl, na expectativa de que ele me salvasse, enquanto Thelma me puxava para a porta. Mas ele disse apenas:
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- Thelma, lembre-se de que devemos estar prontos s cinco horas, pontualmente, para ir ao restaurante.
- Est bem, Karl.
Ela me deu um puxo com fora. Quase que voei para fora do quarto.
- Seja bem-vinda ao nosso lar feliz! - gritou Karl l de trs.
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2 - Outro mundo

Um dos maiores medos de qualquer rfo  o de no conseguir se ajustar ao novo estilo de vida quando se torna parte de uma famlia. No podemos saber como nos comportar 
 mesa do jantar, como fazer na presena de outros parentes, como cuidar de nossos quartos e como passar o tempo. Em suma, no sabemos como agradar nossos novos 
pais. Para ns,  sempre como uma audio, um teste. Sentimos seus olhos nos seguindo por toda parte, ouvimos seus sussurros, sempre especulamos sobre o que realmente 
pensavam. Sentem-se felizes por nos terem includo em suas vidas? Ou se arrependem e procuram por uma maneira gentil de nos devolver?
Foi fcil me adaptar  vida com meus novos pais, saber o que eles esperavam, gostavam e detestavam. No havia nada de imprevisvel em Karl. Era a pessoa mais organizada 
que eu j conhecera. Levantava-se exatamente  mesma hora todos os dias, at nos fins de semana.
- As pessoas cometem o erro de dormir at mais tarde nos fins de semana - comentou ele para mim. - S que isso confunde seu relgio biolgico.
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Ele tambm comia a mesma coisa no desjejum durante os dias teis, uma combinao de cereais frios, misturando a frmula correta de fibras, gros e frutas. Nos fins 
de semana, fazia uma omelete, ou comia mingau de aveia com passas. Embora fosse gorducho, dispensava a maior ateno  nutrio e queria que eu fizesse a mesma coisa.
Mas no fazia exerccios. Admitia que isso era uma falha, mas no se empenhava em corrigi-la. O mais prximo que chegou disso foi a aquisio de uma esteira rolante, 
depois de meses e meses, como descreveu, de comparao de preos e caractersticas. Comentei que o aparelho parecia novo em folha. Karl confessou que ainda tinha 
de desenvolver um programa regular para seu uso.
- Talvez agora que voc est aqui para me lembrar - disse ele -, eu passe a dar mais ateno a essas coisas.
No pensei que ele precisasse de lembretes meus para qualquer coisa. Tudo de Karl era organizado e calculado. Ele sabia exatamente quantas meias tinha, quantas camisas 
brancas, quantas calas e palets, quantas gravatas. Podia at dizer quanto custara cada item. E ainda mais impressionante, sabia quantas vezes usara cada pea de 
roupa, quando precisava ser lavada e passada. Cuidava de suas roupas da maneira como os mecnicos cuidam de seus carros; e quando alguma coisa era usada ou lavada 
um determinado nmero de vezes, ele a guardava num saco com a etiqueta "Para doao".
Karl mantinha sua existncia organizada e regulamentada ao longo do dia, sempre comendo na mesma hora  noite, assistindo ao seu noticirio na televiso, lendo seus 
jornais e revistas. Dormia exatamente s dez horas todas as noites, at nos fins de semana, a menos que tivessem planos para uma sada.
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Se Thelma queria assistir a um filme, Karl pesquisava as crticas e lhe apresentava um relatrio, decidindo se era ou no um desperdcio de dinheiro. Se houvesse 
alguma dvida sobre a qualidade do filme, ele sugeria que fossem  tarde, porque havia um desconto no ingresso e assim o risco seria menor.
- Equilbrio, Crystal - explicou ele. -  o que torna a vida confortvel, a manuteno do equilbrio. Ativo num lado, passivo no outro. Tudo o que voc faz, todas 
as pessoas que conhece, tm seus prs e contras. Descubra quais so, pois assim saber o que fazer.
Karl sempre me fazia prelees desse tipo. E eu sempre prestava ateno, respeitosa, embora muitas vezes achasse que ele estava sendo obsessivo. Nem tudo na vida 
podia ser avaliado em termos de lucros e perdas, eu pensava.
De certa forma, a vida de Thelma era quase to calculada e organizada quanto a de Karl, s que determinada pela programao na televiso de suas novelas e outros 
programas. Se saa de casa por algum motivo durante o dia, Thelma programava os encontros e compromissos de acordo com os horrios da TV naquele dia. Podia assistir 
tudo em vdeo, mas dizia que no era a mesma coisa que assistir no momento da transmisso.
-  como observar a histria no instante em que ocorre, em vez de acompanhar mais tarde pelos noticirios - comentou ela para mim.
Thelma tambm tinha um horrio reservado para a leitura. Sentava em sua cadeira de balano com um xale de renda em torno dos ombros, lendo o livro que recebera naquele 
ms do seu clube de fico romntica. A gua podia ferver no fogo, os telefones podiam tocar, algum podia bater na porta. Nada mais importava depois que ela se 
absorvia numa histria; no ligava para coisa alguma. Deixava este mundo e viajava por outro.
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Apesar disso, era to devotada a Karl e suas necessidades quanto qualquer esposa podia ser. Aos domingos, Karl planejava o cardpio da semana, escolhendo com cuidado 
alimentos que podiam ser usados de vrias maneiras, a fim de justificar a compra em quantidades maiores ou permitir o aproveitamento de sobras. Thelma executava 
o cardpio, ao p da letra. Se alguma coisa no saa como Karl planejara, ela considerava umaa grave crise. Uma manh tivemos de ir a outro supermercado, a mais 
de trinta quilmetros de distncia, porque o mais prximo da casa no tinha a marca de pssegos em lata que Karl queria.
Enquanto Karl era um motorista calmo e cuidadoso, Thelma falava tanto desde o momento em que sentava ao volante que meus ouvidos zumbiam. Sua ateno era desviada 
do trfego com tanta freqncia que por duas vezes pulei to alto que quase bati com a cabea no teto, quando ela mudou de faixa abruptamente e os outros motoristas 
buzinaram furiosos.
Uma semana depois de minha chegada fomos visitar o pai de Karl. Ele morava sozinho numa pequena casa ao estilo de Cape Cod, que ocupava h quase quarenta anos. Era 
um bairro residencial antigo e sossegado, s de casas, a maioria como a casa do pai de Karl.
Era mais alto e bem mais magro do que o filho, com um rosto que me fez pensar em Abraham Lincoln, comprido e marcado. Pelos retratos que vi na mesa da sala de estar, 
conclu que Karl sara mais  me. Seus irmos, por outro lado, pareciam com o pai, ambos mais altos e mais magros do que Karl.
Papai Morris, como ele me foi apresentado, era um velho rabugento, que trabalhara para o departamento de gua da cidade. Sentia-se contente em viver da penso, confraternizar 
com os amigos aposentados, jogar cartas, visitar o bar local e ler os jornais. Karl combinara
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com uma mulher para fazer uma limpeza duas vezes por semana, mas seu pai no admitia que ningum cozinhasse para ele.
- Saberei quando no puder mais cuidar de mim - murmurou ele, quando Karl fez a sugesto mais uma vez.
A cozinha, no entanto, no era muito limpa. Havia panelas com restos de feijo e arroz, alguns pratos empilhados na pia, esperando pela faxineira. Thelma foi lavar 
tudo assim que chegamos. Eu a ajudei. Arrumamos mais ou menos a cozinha, enquanto Karl e o pai conversavam. Depois, sentamos todos na sala de estar e tomamos limonada.
Papai Morris observou-me com algum interesse, enquanto Thelma descrevia o comeo maravilhoso de nossa vida juntos. Os olhos castanhos de Papai Morris, grandes e 
foscos, se contraram em desconfiana.
- Gosta de viver com esses dois? - perguntou-me ele, ctico.
- Sim, senhor - respondi sem hesitar.
- Sim, senhor? - repetiu ele, olhando para Karl, sentado com as mos cruzadas no colo.
- Ela  uma mocinha muito bem-educada. - Thelma lanou-me um olhar orgulhoso. - Muito parecida com Whelma Matthews em Dias de sol.
- No precisa me chamar de senhor, menina. Ningum jamais me chamou de senhor. No tenho qualquer pretenso. Sou apenas um aposentado.
- Ela  muito inteligente, papai - acrescentou Thelma. - S tira A na escola.
- Isso  timo. - Ele balanou a cabea para mim, o rosto abrandando um pouco. - Minha Lily sempre quis ter netos, mas nenhum dos meus filhos jamais lhe deu nenhum. 
Netos so uma espcie de retorno do seu investimento.
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O velho fez uma pausa, olhou para Karl.
- Por falar em investimentos, o que est acontecendo com aquele fundo em que voc aplicou minhas economias, Karl?
- Subiu vinte e dois por cento, papai.
- Voc  mesmo esperto, Karl.
Ele tirou do bolso um pedao de tabaco para mascar.
- Deveria parar com isso, papai. J se sabe que causa cncer na boca. Li uma reportagem a respeito ontem.
- Masco fumo h cinqenta anos. No h sentido em parar agora uma coisa de que gosto. No concorda, Thelma?
Ela olhou para Karl, apreensiva.
- Ahn... eu...
- Claro que deve e claro que h sentido - interveio Karl. - Por que causar a si mesmo um sofrimento desnecessrio?
- No estou sofrendo. Ao contrrio, gosto muito. No sei quem  mais chato, se voc ou aquela mulher que manda trabalhar aqui. Tudo o que ela faz  se queixar do 
trabalho que fao para ajud-la. Quanto paga a ela?
- Dez dlares por hora.
- Dez dlares? Quer saber de uma coisa? - Ele olhou para mim. - Houve um tempo em que era dinheiro suficiente para alimentar a famlia durante uma semana.
- Houve muitos motivos para a inflao desde ento - comentei.
-  mesmo? Voc  um gnio econmico como Karl?
- No, senhor. Apenas leio um pouco.
- Ela l muito, papai - disse Thelma. - L mais do que eu.
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- Lily gostava de ler.
O velho pensou por um momento. Depois, bateu com a mo no brao da poltrona, com toda fora. Thelma e eu tivemos um sobressalto.
- Podem trazer essa mocinha bem-educada para me visitar com mais freqncia - declarou ele, levantando-se.
- Podemos ficar mais um pouco, papai - sugeriu Thelma.
- Mas eu no posso. Tenho de me encontrar com Charlie, Richard e Marty no Gordon's para nossa partida de pinochle.
Thelma olhou para Karl.
- S viemos para apresentar Crystal e saber como voc est, papai - declarou Karl, levantando-se tambm.
- Vou to bem quanto posso com o que tenho - respondeu o velho, olhando para mim.
Todos nos levantamos.
- Foi um prazer conhec-la - acrescentou ele.
O pai de Karl estendeu a mo e apertei-a. Ele tinha dedos compridos e speros, com unhas amareladas e grossas, dois anos alm da poca em que deveriam ter sido cortadas.
Na volta para casa, pensei no velho e na maneira como sempre imaginara que meus avs seriam. Nunca, em qualquer dos meus sonhos, projetara-me a apertar a mo deles. 
Pensava que me dariam abraos e beijos, exultariam por mim, como costumava acontecer nos filmes e livros. Talvez a me e o pai de Thelma fossem mais parecidos com 
o que eu imaginava, refleti.
E eram mesmo.
A me de Thelma era tambm uma mulher pequena, at menor do que a filha, muito magra, com pulsos to finos que davam a impresso de que poderiam partir se ela levantasse 
uma xcara de caf cheia. Mas tinha
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um sorriso largo e os olhos azul-esverdeados mais adorveis que eu j vira. Mantinha os cabelos na cor grisalha natural, mas cortados e penteados com a maior elegncia. 
O pai de Thelma tambm era alto e magro, mas muito mais efusivo do que o pai de Karl. Exigiram de imediato que eu os chamasse de vov e vov. Vov me abraou e beijou 
assim que fomos apresentadas.
- Fico muito feliz porque haver algum jovem nesta casa. Agora ser um lar de verdade. No deixe de mimar esta criana, Karl Morris - advertiu ela, sacudindo o 
indicador direito no rosto dele. - Nada de pensar como um contador em relao a Crystal.  o que os pais devem fazer.
Vov sorriu e arrematou, como uma ameaa jovial:
- Se voc no fizer, ns faremos.
Antes de irem embora, eles me deram vinte dlares. Vov disse:
- Compre o que Karl no quiser que voc tenha, o que ele acha que  um desperdcio de dinheiro.
Ela riu e tornou a me beijar. Gostei muito de minha nova av, j ansiosa pela prxima vez em que voltaria a v-la.
Entre tudo o que acontecera desde que eu viera viver com Karl e Thelma, aquilo fora o melhor. Meus avs finalmente me fizeram sentir parte de uma famlia de verdade. 
A vida com Karl e Thelma comeara de uma maneira to formal e organizada que eu ainda tinha de pensar neles como pais. Karl era mais como um conselheiro, e Thelma 
vivia to absorvida em seus livros e programas de televiso que eu me sentia mais como uma hspede que ela convidara para partilhar suas fantasias.
Aguardava ansiosa pelo incio das aulas, a possibilidade de formar novas amizades, o desafio de novas matrias e professores. Thelma levou-me para fazer a
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matrcula. Por causa da minha ficha, fui para uma tur-ma adiantada. Ela gabou-se disso durante todo o jantar naquela noite. Como sempre, no entanto, encontrou uma 
personagem da fico para me comparar.
- A filha de Brenda em Tempestade no corao  igual a voc, Crystal. Ela tambm  genial. Talvez se torne presidente do pas algum dia.
- Como a filha de Brenda pode ser presidente algum dia, Thelma? - indagou Karl. - Ela no est num livro que voc j leu?
- Mas tem uma continuao para sair, Karl - informou Thelma, sorrindo. - H sempre uma continuao.
- Ah, sim... - murmurou ele, balanando a cabea e olhando para mim.
- S que Crystal  mais inteligente - garantiu Thelma. - Deveria ouvir algumas das coisas que ela diz, Karl. Pode prever o que vai acontecer em minhas novelas antes 
que acontea.
- So bastante previsveis - comentei.
- O que isso significa? - perguntou Thelma, batendo as pestanas.
- Significa que no so difceis de decifrar - disse Karl. - So muito simples.
- Ahn... - Thelma soltou sua risada estridente. - So difceis para mim.
Karl me lanou um olhar. Passamos a conversar sobre outra coisa. Senti-me mal com o incidente. Mais tarde, pedi desculpas.
- No quis fazer troa de seus programas, Thelma.
- Fez troa deles? No pensei assim. Como poderia zombar deles? So repletos de emoo e romance. No gosta disso?
- Claro que gosto de boas histrias.
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- A est. Eu sabia que voc gostaria. No se esquea que amanh saberemos sobre o ex-marido de November. Acha que ele ainda a ama?
- No me lembro dele - admiti.
Ela fitou-me como se eu tivesse dito a coisa mais absurda do mundo.
- No pode ter esquecido de Edmond. Ele  bonito demais. Se batesse na porta da minha casa, eu desmaiaria.
Thelma arrematou o comentrio com sua risada estridente. Especulei se todas as pessoas que assistiam novelas de televiso eram to absorvidas e envolvidas quanto 
Thelma. Poucos dias depois, um dos seus personagens prediletos morreu, em Dias de sol. Entrei na sala no momento em que isso acontecia. Thelma desatou a chorar to 
forte que fiquei assustada. Ps-se a gritar para o aparelho de TV.
- Ele no pode estar morto! No  possvel! Como pode morrer? Por favor, no o deixe morrer! Oh, Crystal, ele est morto! Grant morreu! Como pode ter morrido?
- As pessoas morrem na vida real, mame. Portanto, algumas tm de morrer nas novelas, no  mesmo?
- No, no  - insistiu Thelma, o rosto irradiando uma raiva que eu ainda no vira at ento. - No  justo. Eles nos fizeram am-lo, e agora resolvem mat-lo. No 
 justo!
Ela mergulhou numa profunda depresso. Nada que eu dissesse ou fizesse podia mudar seu nimo. Ainda permanecia nesse estado quando Karl chegou em casa e sentamos 
para jantar. Ele perguntou por que Thelma se sentia to triste. Ela explicou o que acontecera, para depois recomear a chorar. Karl olhou para mim. Baixei os olhos 
para o meu prato. Meu corao batia forte. No sabia o que dizer.
- Est assustando sua filha - comentou Karl.
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Thelma me fitou e fez um esforo para reprimir os soluos.
- No tive a menor inteno de assust-la, Crystal. Mas  to triste...
-  apenas um programa, mame. Amanh acontecer alguma coisa nova. Tenho certeza de que se sentir melhor.
- Tem razo. Vou me sentir melhor. Est vendo como ela  inteligente, Karl?
- Claro que sim - respondeu Karl. Terminamos o jantar. Mais tarde, encontrei Thelma em sua cadeira de balano, olhando para o cho.
- Vou subir agora para ler e dormir, mame.
- Como? Ah, sim... Boa-noite, querida. Tenha bons pensamentos. Pobre Grant... No pude deixar de lembrar como foi quando a me de Karl morreu.
Fiquei aturdida. Como a morte de uma pessoa real podia ser igual  morte de um personagem de novela?
- Ele  um ator, mame. Vai aparecer de novo, em outra novela.
- Quem?
- Grant.
- No vai, no, sua boba. Grant no  um ator. Era uma pessoa que morreu. No penso neles como atores. - Thelma voltou a se balanar, olhando para o cho. -Todos 
estaro muito tristes no captulo de amanh.
- Nesse caso, talvez seja melhor no assistir.
Ela levantou os olhos para fitar-me, aturdida, como se eu tivesse acabado de dizer uma blasfmia.
- Tenho de assistir, Crystal. Eu me importo com todos eles. So meus amigos.
Thelma dava a impresso de que eles sabiam que ela os assistia e dependiam dela.
Tornou a olhar para o cho, em vez de me dar um beijo de boa-noite, como fizera desde o meu primeiro dia na casa. Subi apressada para dormir. No sabia exatamente
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por que, mas senti alguma apreenso, pela primeira vez desde que viera morar aqui. Deitada na cama, tentei compreender o motivo para essa apreenso. Acho que tive 
medo de que minha nova me sempre se importaria mais com seus personagens do que comigo.
Eu encontrara um lar cheio de retratos da famlia, conversas sobre parentes, promessas de frias e viagens. Tinha avs, muito em breve comearia a estudar numa nova 
escola. Tinha meu prprio quarto, iniciara toda uma vida nova.
Mas, e se acordasse de manh e descobrisse que algum virara um boto e me fizera voltar ao orfanato?
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3 - Farinha do mesmo saco.

Dois dias antes das aulas comearem, eu estava sentada na varanda, lendo um livro. Thelma queria que eu assistisse Cuidados de emergncia em sua companhia. Era uma 
nova srie, ao final da manh, sobre o pronto-socorro num hospital de cidade grande. Ela tentou me atrair com a promessa de que eu aprenderia muitas informaes 
mdicas.
- Se voc quer ser mdica um dia, Crystal - enfatizou ela - aprender muito com o programa.
- Aprenderei mais lendo.
Percebi que isso a deixava infeliz, mas senti que j tomara uma overdose de novelas e televiso em geral. No orfanato, se eu assistia a dois programas por semana 
era muito. Sabia que a maioria das outras crianas da minha idade me achava esquisita, porque eu preferia ler um livro ou trabalhar no computador a assistir seus 
programas noturnos prediletos. Mas eu era assim.
Alm disso, o dia estava lindo. No era admissvel desperdi-lo dentro de casa, com o brilho da tela da televiso em meus olhos. Aquela era a minha poca predileta 
do ano. O vero se aproximava rpido do fim, o ar j transmitia a sensao dos iminentes dias frios do
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outono. Parecia mais claro, com uma fragrncia mais viosa. Sem a umidade e as temperaturas elevadas, eu me sentia mais vigorosa. At me sentia irrequieta, sentada 
ali, lendo.
- Oi - disse algum.
Levantei os olhos para me deparar com uma garota mais ou menos da minha idade, cabelos louros da cor de girassis, parada no porto. Usava um short largo e uma camiseta 
com meias-luas impressas. Dois brincos de prata compridos, com pedras azuis e verdes, pendiam de suas orelhas.
- Eu moro ali - disse ela, apontando para uma casa no outro lado da rua.
-Oi.
Tentei me lembrar se j a vira antes na vizinhana.
- Acaba de se mudar para a casa de Karl e Thelma, certo? J me contaram - ela falou antes que eu pudesse responder. Jogou alguns fios de cabelos para trs, por cima 
do ombro, como se estivesse se descartando de um papel de bala. - Meu nome  Helga. Acho que vamos ser colegas de turma. Vai para a dcima, no ?
- Isso mesmo. Sou Crystal.
- Helga e Crystal. Vo pensar que somos irms. Ela soltou uma risadinha. Apoiou todo o peso do corpo na perna direita. Do lugar em que eu sentava, parecia que Helga 
se encostava num muro imaginrio.
- O que voc est lendo, Crystal?
- O senhor das moscas. Est includo no curso de literatura inglesa este ano.
- Como sabe?
- Perguntei quando fiz a matrcula. Deram-me a lista dos livros.
Helga fez uma careta, transferiu o peso para a perna esquerda, de novo para a direita. Mais tarde, eu descobriria
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que ela tinha o hbito de fazer isso quando se sentia confusa ou aborrecida.
- J est fazendo os deveres da escola?
- Por que no? - Dei de ombros. - Gosto de me antecipar.
- Deve ser uma boa aluna - murmurou ela, recostando-se no porto, com uma cara desapontada.
- Voc no ?
Foi a vez de Helga dar de ombros.
- Quase todas as minhas notas so C, de vez em quando tenho um B. Desde que no tire nenhum D e F, meus pais no me chateiam. Morava com alguma outra famlia no 
ano passado?
- No.
Ela me fitou atentamente, como se estivesse tomando coragem para fazer outra pergunta.
- Eu vivia num orfanato - expliquei.
- Ah... Tinha irmos ou irms que teve de deixar para trs? Ou que foram adotados por outras famlias?
- No, mas j vi isso acontecer... e no  nada agradvel.
Helga sorriu.
- Espero que no se incomode por eu ser bisbilhoteira. Minha me diz que  uma caracterstica da famlia. Assim que ouvimos ou vemos alguma coisa que no  da nossa 
conta, ficamos na ponta dos ps e esticamos o ouvido. Ela diz que nossa famlia serviu de inspirao para os primeiros espies.
Soltei uma risada.
- Quer dar uma volta, Crystal? Posso lhe mostrar o que tem por aqui.
- Boa idia.
Levantei-me. Hesitei por um instante, olhando para a porta.
- Qual  o problema? - perguntou ela.
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- Devo avisar  minha me?
- Sua me? Quer dizer que voc tem de comunicar quando entra ou sai?
- No.
- Ento, por que se preocupar? S vamos dar uma volta pela rua.
Acenei com a cabea. J que no esperava me ausentar por muito tempo, decidi no interromp-la enquanto assistia sua novela.
S quando me aproximei de Helga  que percebi que ela era pelo menos dez centmetros mais alta do que eu. Tinha pequenas sardas nas faces. Parecia que algum as 
pintara ali com uma caneta esferogrfica de tinta marrom-claro.
- So bem grossas as lentes dos seus culos - comentou ela.
- Tenho astigmatismo.
- Seus culos so horrveis. Deve ir comigo ao shopping center um dia desses para comprar uma armao mais bonita. Talvez possa tambm arrumar culos escuros de 
grau. Vai ficar mais atraente.
- No uso culos pela aparncia, mas sim para me ajudar a ver e a ler.
Helga riu.
- Claro... at que algum como Tom McNamara aparea em seu caminho. Ele  lindo, mas est no ltimo ano. Provavelmente nem vai olhar para ns. E por acaso ele  
tambm o capito do time de futebol americano.
- Provavelmente eu no me interessaria mesmo por ele.
Ela parou de andar.
- Tenho certeza que no. - Helga deslocou o peso do corpo de uma perna para outra. - Tinha um namorado no orfanato?
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- No. Nunca tive um namorado de verdade. Ela me fitou nos olhos por um longo momento, depois recomeou a andar.
- Eu tambm no. Fingi gostar de Jack Martin um ano, s para dar a impresso de que tinha um namorado. Mas nunca o beijei... e quando ele tentou me beijar, virei 
a cabea. Assim, o beijo foi no rosto, como um tio ou algum parecido. Est vendo aquela casa enorme?
Helga fez uma pausa, apontando.
- Clara Seymour mora ali. Ela tambm vai fazer o ltimo ano e deve ser a rainha do baile de formatura. O pai dela  mdico do corao, crdio... alguma coisa.
- Cardiologista.
- Acho que  isso. - Ela inclinou a cabea para o lado, fitou-me com os olhos contrados. - Voc  inteligente.
- Estou pensando em me tornar mdica tambm.
- Mdica? Custa muito caro, pelo que me disseram.
- Espero conseguir uma bolsa de estudos.
- Pois eu me sentirei muito contente s de tirar o diploma do secundrio. No tenho a menor idia do que farei. Pensei em me tornar uma atriz, mas nem sequer consegui 
entrar na pea da escola.
- O que gosta de fazer?
- Ir a festas e assistir televiso. - Ela soltou uma risada. Depois, parou de repente e segurou meu brao. - Ei! Tome cuidado com o cachorro naquela casa. A velha 
Potter mora ali. Tem um Rotweiller para sua proteo. No ano passado ele mordeu um entregador. Deu a maior confuso, com a polcia e todo o resto.
- Pode ter certeza de que me manterei a distncia daquele jardim. - No pude deixar de rir. - Obrigada pelo conselho.
- Se virar  direita na esquina e percorrer dois
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quarteires, vai encontrar a Quick Shop, onde poder comprar revistas, chicletes e outras coisas. No estamos longe da escola, apenas uns trs quilmetros. Vai pegar 
o nibus?
- Acho que sim. No creio que Karl queira me levar de carro todos os dias, ainda mais se tem um nibus.
- Voc o chama de Karl?
- Neste momento, sim - respondi, desviando os olhos.
- Mas chama Thelma de mame?
- Ela quis assim desde o incio. Mas quer saber de uma coisa? Voc tem razo.
- Em qu?
-  mesmo intrometida. Helga riu.
- Venha comigo. Vou apresent-la a Bernie Felder. Tenho o pressentimento de que os dois vo se dar muito bem. Ele tambm  um gnio.
- No sou um gnio.
- Ou alguma coisa parecida.
Ela acelerou os passos, seguindo para outra casa em estilo de rancho, com uma fachada de alvenaria. Era uma casa mais luxuosa. Tinha um jardim mais requintado do 
que a maioria, com quase o dobro do tamanho da casa de Karl e Thelma.
- O que os pais de Bernie fazem?
- O pai tem uma grande loja de pneus que atende a caminhes. Bernie  filho nico, como voc.
- E voc?
- Tenho-um irmo menor que ignoro. Meus pais lhe deram o nome de William, mas s chamam de Buster.
- Buster?
- Quando o conhecer, vai compreender por qu.
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Ele  mesmo um buster, algum que vive quebrando coisas. Mas vamos at l.
Helga foi direto para a porta da frente.
- Talvez devssemos telefonar primeiro - murmurei.
Mas ela tocou a campainha.
- Prefiro ser inesperada.  mais divertido.
Uma criada abriu a porta. Helga pediu para falar com Bernie. Poucos momentos depois, um menino mais ou menos da minha altura, com cabelos ruivos despenteados e olhos 
verde-claros, apareceu na porta. Usava uma camiseta que parecia ser um nmero duas vezes maior do que o dele, jeans e tnis sem meias. O rosto era plido, com lbios 
vermelhos polpudos e queixo com uma fenda.
- Oi, Bernie - disse Helga. Ele fez uma careta.
- O que voc quer?
- Isso no  uma maneira muito simptica de receber as pessoas.
- Eu estava fazendo uma coisa - murmurou ele, como uma desculpa.
- No est fazendo bombas, no ? - Helga olhou para mim. - Minha me sempre diz que Bernie  bem capaz de fazer bombas.
Quando ela se virou para mim, Bernie finalmente me percebeu. O rosto se encheu de interesse.
- Quem  essa?
- Nossa nova vizinha, Bernie. Se no tivesse rosnado para mim, eu j a teria apresentado.
- Desculpe. - Ele olhou para mim. - Ol.
- Ol. Lamento se o interrompemos, mas...
- No tem problema. Bernie parecia embaraado.
- Claro que no tem problema - declarou Helga.
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- O que Bernie podia estar fazendo que no devesse ser interrompido?
- O que quer que fosse, era importante para ele - comentei, secamente.
Helga sorriu, enquanto o rosto de Bernie se desanuviava.
- Acaba de se mudar para c?
- Se no passasse o tempo todo com o nariz num tubo de ensaio, Bernie, j teria sabido. O nome dela  Crystal. Foi adotada pelos Morris.
-  mesmo?
Os lbios de Bernie se contraram, enquanto ele me fitava com um interesse ainda maior.
- Ela era rf.
Helga recuou um passo para me olhar. Os dois me fitaram em silncio por um longo momento.
- Eu era apenas uma rf, no uma extraterrestre. Bernie sorriu.
- Ela gosta de ler e  muito inteligente - continuou Helga. - Talvez at mais do que voc, Bernie. Foi por isso que achei que deveriam se conhecer.
- Jura? - murmurou ele, com interesse crescente.
- A idia foi dela. Sinto muito por termos incomodado.
Comecei a me virar.
- Ei, no foi nada! Vamos entrar.
- Bernie est nos convidando para entrar. - Helga franziu as sobrancelhas. - Vai nos mostrar seu laboratrio?
- No tenho nenhum laboratrio.
Bernie falou em tom rspido. Helga riu. Ele olhou Para mim.
- Helga e seus amigos esto sempre inventando estrias a meu respeito.
- No inventamos nada, Bernie. E se o fizssemos,
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voc deveria se sentir honrado por falarmos a seu respeito.
- Que honra...
Bernie deu um passo para trs. Com um gesto enftico, Helga determinou que eu entrasse atrs dela. Foi o que fiz.
Compreendi no mesmo instante que os pais de Bernie tinham muito dinheiro. Havia quadros por todas as paredes, as salas eram enormes, com mveis que pareciam muito 
caros. No corredor para o quarto dele havia uma cristaleira com estatuetas. Todos os assoalhos eram cobertos por um carpete to macio que experimentei a sensao 
de andar sobre marshmallow.
O quarto de Bernie era duas vezes maior do que o meu, talvez trs. Ele tinha uma escrivaninha grande, um computador e todos os tipos de acessrios. Reconheci um 
scanner e duas impressoras. Ele tinha at seu prprio aparelho de fax. Uma parede era coberta por grficos, que incluam a anatomia do corpo humano, uma relao 
de planetas e algumas galxias, uma cronologia da evoluo, e um sumrio histrico dos presidentes e vice-presidentes americanos, com uma relao dos principais 
eventos durante os seus mandatos.
 direita havia prateleiras que continham um microscpio, slides, balanas e at um bico Bunsen. Vi material de qumica e vrias prateleiras com livros de referncias. 
O que ele no tinha?
- Est vendo? - disse Helga. - Ele tem um laboratrio em seu quarto.
- No  um laboratrio. Tenho apenas algumas coisas para aprofundar meus interesses - protestou Bernie, na defensiva. - Quero um dia me dedicar  pesquisa gentica.
- Nem sei o que isso significa - comentou Helga.
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Ele franziu o rosto e sacudiu a cabea. Apontou para uma coisa que parecia um Tinker Toy e me perguntou:
- Sabe o que  aquilo?
- Sei, sim.  um modelo de DNA.
- Exatamente!
O rosto de Bernie se tornou mais animado do que em qualquer outro momento desde que nos conhecramos.
- O que  um DNA? - perguntou Helga.
- Tem a ver com a gentica - respondeu Bernie.
- Quer dar uma olhada nisto? Eu mesmo montei.
Adiantei-me, enquanto Helga indagava:
- No tem um CD ou algo parecido por aqui, Bernie?
- No.
- Como ouve msica?
- Pelo computador, quando quero. Bernie virou as costas a Helga.
-  como estar de volta  escola - queixou-se ela.
- No tem nenhum cartaz de filme, nem de astro do rock, apenas essas coisas... essas coisas educativas.
-  muito bom - comentei, acenando com a cabea para o modelo.
Ele ficou radiante de orgulho.
- Vamos embora, Crystal - disse Helga. - Vou lhe mostrar o resto da vizinhana. Talvez Fern Peabody esteja em casa. Ela anda de namoro firme com Gary Lakewood. Sempre 
tem boas histrias para contar.
- Tenho tambm alguns slides interessantes - informou Bernie, ignorando-a. - Recebi ontem. So de embries humanos.
- Jura? - murmurei.
- Essa no! - exclamou Helga. - Eles fedem?
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- Claro que no - respondeu Bernie, rspido. - Voc devia prestar mais ateno s aulas de cincias.
- Isto aqui est muito chato. - Helga fez uma pausa, antes de ameaar: - Vou embora.
Bernie ps a mo no microscpio e olhou para mim.
- Mas eu vou ficar.
Sabia que deveria sair com ela, para conhecer mais gente da rua. S que os projetos de Bernie me fascinavam demais.
- Eu j sabia - declarou Helga. - Farinha do mesmo saco. Falarei com voc mais tarde.
Ela me lanou um olhar contrariado, antes de sair do quarto. Bernie sorriu. Depois levou o microscpio para a mesa e se apressou em arrumar tudo.
- Sente-se aqui - disse ele, indicando sua cadeira. Bernie punha os slides no microscpio, falando a respeito de cada um, enquanto eu olhava. Era como estar numa 
aula, mas eu no me importava. J conhecia alguma coisa, mas no a maioria. Bernie se sentia to entusiasmado por ter uma audincia que no parava de falar. Pegou 
at mais slides. Fiquei to absorvida que nem percebi a passagem do tempo, at olhar para o relgio na mesinha-de-cabeceira.
- Oh, no! - exclamei. -  melhor eu voltar para casa agora. No avisei  minha me que ia sair. No pensei que podia demorar tanto. J passaram dez minutos do incio 
do jantar.
- Est bem. - O desapontamento de Bernie era evidente. Ele tambm olhou para o relgio. - No janto numa hora determinada. Como quando tenho fome.
- E seus pais?
- Em geral eles saem ou jantam em horrios diferentes.
- Nunca jantam juntos?
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- s vezes - respondeu ele, enquanto guardava seus slides.
- Obrigada por me mostrar tudo - murmurei, quando me encaminhava para a porta.
- No foi nada.
Ele me acompanhou pelo corredor.
- Talvez eu torne a v-lo - comentei, virando-me para fit-lo, antes de sair.
- Est bem. Quando quiser.
- Obrigada. Comecei a me afastar.
- Ahn... Parei.
- O que ?
- Esqueci uma coisa. Qual  mesmo o seu nome?
- Crystal.
- O meu  Bernie.
Tive vontade de dizer: "Sei disso. Lembro seu nome. Como eu podia esquec-lo?" Mas ele fechou a porta antes que eu pudesse acrescentar qualquer palavra.
Segui apressada pela calada. Ao chegar em casa, vi que meu livro no estava mais no brao da cadeira. Senti um pequeno pnico, porque compreendi que Thelma viera 
me procurar. Acelerei os passos e entrei em casa quase correndo.
- Pronto! - exclamou Karl, ao ouvir a porta fechar e saindo da sala de estar. - Ela voltou e est bem.
Avistei Thelma, com os olhos injetados, o rosto plido. Segurava a saia e torcia o pano na maior ansiedade.
- Oh, Crystal! Tive certeza de que alguma coisa terrvel havia acontecido com voc. Quando sa para cham-la na hora do jantar e encontrei apenas seu livro...
- Desculpe - murmurei para os dois. - Uma garota veio at a porta para se apresentar. Samos para
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dar uma volta e demorou mais tempo do que eu pensava. Paramos para visitar Bernie Felder e...
- Quando vi o livro e a cadeira vazia - continuou Thelma, sem escutar minha explicao -, s pude pensar em Corao vazio, de Amanda Glass.  a histria de uma menina 
que foi seqestrada e criada por outra famlia. H uma cena igualzinha. Encontram o livro dela na grama, ao lado de sua cadeirinha. S depois de se tornar uma moa 
 que ela volta para os pais verdadeiros.
Fiquei olhando para Thelma sem dizer nada.
- Mas Crystal no foi seqestrada - interveio Karl, calmamente. - Portanto, Thelma, tire todo esse horror de sua mente.
Ele virou-se para mim.
- Na prxima vez, Crystal, avise-nos para onde vai, por favor.
- Desculpe. No pensei que demoraria tanto. Fiquei absorvida demais nos slides de Bernie Felder. Nunca vi tantas coisas na casa de uma pessoa e...
- Est tudo bem. O jantar atrasou um pouco, mas no tem problema. Vamos esquecer, Thelma, certo? - Karl olhou para o relgio. - No h sentido em desperdiar mais 
tempo com isso.
- Tem razo. - Thelma respirou fundo. - Est certo.
Ela sorriu e acrescentou, como se eu tivesse me ausentado por sculos:
- Apenas estou feliz porque voc voltou. Foi isso o que a me disse em Corao vazio.
Thelma me abraou como se tivesse medo de que eu pudesse desaparecer se me largasse. Senti-me muito confusa. Claro que ficava feliz por algum se importar tanto 
comigo, por algum se mostrar to triste e transtornada
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com o medo de que eu tivesse ido embora. E, no entanto, no podia deixar de especular. Quando Thelma me fitava, a quem ela realmente via? Eu ou a garota em Corao 
vazio?
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4 - Escolha do elenco

Thelma sentiu-se melhor ao jantar depois que comeou a me falar sobre uma novela da televiso. Como ainda me sentia culpada pelo que fizera, fingi me interessar 
pela histria e os personagens. Mas me parecia um absurdo que pessoas entrassem e sassem daqueles casos de amor ardente com tanta facilidade, que as pessoas se 
trassem mutuamente apesar de se conhecerem e confiarem umas nas outras h muito tempo, e que os filhos pudessem desprezar tanto seus pais. Para Thelma, no entanto, 
o que acontecia nas novelas era como o evangelho. A impresso era a de que alguns profetas bblicos escreviam os roteiros.
At certo ponto, eu no podia culp-la. A maioria dos gals tinha uma aparncia divina, perfeita. As mulheres eram atraentes at mesmo quando acordavam pela manh. 
Quando perguntei, na maior inocncia, se devamos acreditar que iam dormir maquiladas, Thelma respondeu que as mulheres to lindas sempre do a impresso de que 
usam maquilagem.
- Jamais conheci uma mulher to bonita - comentei.
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Thelma riu de uma maneira que me fez sentir como uma desinformada.
- Por isso  que so minhas pessoas especiais, Crystal. Entende agora por que gosto de assistir as minhas novelas?
No h mal nenhum em assisti-las, pensei, desde que nos lembremos de que a vida no  realmente como uma novela. Nossas vidas no so repletas de eventos dramticos, 
as pessoas quase nunca se sentem to apaixonadas por qualquer coisa como acontece a todo instante na telinha.
- O que aconteceu entre Nevada e Johnny Lee afetou meu corao! - exclamou ela, quase ao final do jantar.
Thelma sorriu, as lgrimas preenchendo os sulcos em torno de seus olhos. Depois, ela olhou para Karl e se inclinou para pegar sua mo.
Karl me fitou quando ela ps a mo sobre a dele. Parecia constrangido, mas no a deteve, nem retirou a mo. No pude deixar de pensar no tipo de vida amorosa que 
meus novos pais partilhavam. Em todos os retratos dos dois na casa, eles pareciam muito formais. Karl sempre numa pose empertigada e rgida, Thelma sempre dando 
a impresso de que tinha medo de cometer um terrvel erro social.
Mais tarde, ainda naquela noite, descobri que tipo de vida romntica eles tinham. Subi para me deitar antes dos dois, como sempre. Quando os deixei na sala de estar, 
Karl lia Business Weekly, enquanto Thelma assistia ao vdeo que fizera do captulo de uma novela, perdido por causa de uma consulta com o dentista. Terminei de ler 
meu livro. Sentia-me um pouco cansada. Mais uma vez, pedi desculpas a Thelma pelo susto que lhe dera. Prometi que nunca mais faria aquilo.
- Voc  maravilhosa por dizer isso, querida. Karl
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e eu tivemos certeza, desde o momento em que a vimos pela primeira vez, de que era uma moa responsvel e que coisas assim no aconteceriam com freqncia, se  
que poderiam acontecer. Tudo j foi perdoado.
Ela falou com um inesperado ar teatral, alteando a voz, os braos estendidos para o ar num gesto dramtico. At mesmo Karl baixou a revista e fitou-a com preocupao 
por um momento.
Thelma virou os braos para mim. Avancei para que ela pudesse me abraar, embalando-me para a frente e para trs, enquanto dizia, como se recitasse uma cano montona:
- Devemos ser boas uma com a outra, gentis, atenciosas e afetuosas. Voc tem sofrido demais, querida, e minha vida foi vazia sem a sua presena. O amor que temos 
uma pela outra  quase sagrado. Sempre, mas sempre mesmo, devemos ter um lugar em sua vida. Promete, Crystal? Promete?
- Prometo.
Eu no sabia direito o que estava prometendo. Ela soltou um suspiro profundo, embora continuasse a me abraar.
- Thelma - interveio Karl, com extrema gentileza -, a criana est cansada e quer ir para a cama.
-  verdade, para a cama. Boa-noite, querida. Boa-noite, boa-noite, boa noite.
Ela entoou as palavras em meu ouvido, beijou-me no topo da cabea.
- Boa-noite para vocs tambm.
Subi em seguida. Seria mesmo possvel, especulei, que Thelma precisasse de mim mais do que eu precisava dela? Ningum jamais me abraara assim, muito menos por tanto 
tempo. Embora as mulheres que trabalhavam nos orfanatos me beijassem de vez em quando, seus beijos no passavam de um rpido estalar dos
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lbios, quase como um afago nas faces ou na testa. Eu no sentia nada, nem amor, nem uma profunda preocupao. A verdade  que Thelma, apesar de todos os seus defeitos, 
fazia-me sentir amada. O que podia ser mais importante do que isso?
Eu acabara de fechar os olhos e puxara o cobertor at o queixo quando ouvi passos suaves no corredor. E de repente, numa voz que quase no reconheci, ouvi Thelma 
falar. Foi desconcertante. Tive de sentar na cama para escutar melhor.
- Johnny Lee, perdoe-me, por favor - murmurou ela. - No me odeie, por favor.
A princpio, pensei que ela estivesse apenas repetindo as falas que mais gostara da novela que acabara de assistir. Mas depois ouvi Karl responder:
- Eu no a odeio. Nunca poderia odi-la, Nevada.
- Quero me entregar a voc, Johnny Lee. Quero me entregar a voc como nunca me entreguei a mais ningum.
- Sei disso. E tambm a quero, Nevada.
Houve um momento de silncio, depois os passos continuaram. Fui at a porta e a entreabri para espiar. Os dois estavam parados no corredor, beijando-se na boca. 
Fiquei hipnotizada. Karl enfiou a mo esquerda sob a blusa de Thelma.
- No! - murmurou ela, recuando.
- Por que no?
- No acontece assim. No h nada at ela comear a chorar.
Karl retirou a mo de dentro da blusa, baixou-a para o quadril de Thelma.
- Est bem, est bem. Eu tinha esquecido.
- Vai estragar tudo.
- J disse que eu tinha esquecido.
- Comece de novo.
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- Por qu?
- Tem de comear tudo desde o incio.
- Isso  bobagem, Thelma.
- No me chame de Thelma! Est estragando tudo!
- Calma, calma... Desculpe. Vou recomear. Karl recuou um passo. Fechei a porta sem fazer barulho, para que nenhum dos dois me visse espionando. Mas meu corao 
batia to forte que tive medo que escutassem o barulho. Continuei a escutar.
Karl atravessou o corredor e fechou uma porta. Tornou a abri-la e chamou:
- Nevada!
Entreabri a porta outra vez. Thelma estava parada no meio do corredor, agora de costas para mim. Virou-se devagar, com uma expresso muito diferente. Dava a impresso 
de que se encontrava num palco.
- Johnny Lee!
Ela passou a mo pelas faces. Percebi que derramava lgrimas de verdade.
- Por favor, perdoe-me, por favor. No me odeie.
- No a odeio. Nunca poderia odi-la, Nevada.
- Quero me entregar a voc, Johnny Lee. Quero me entregar a voc como nunca me entreguei a mais ningum.
- Sei disso. E tambm a quero, Nevada.
Karl repetia suas falas como fizera antes. Adiantou-se e os dois se abraaram, mas no se beijaram. Desta vez ele manteve as mos nos quadris de Thelma. Ela comeou 
a chorar, o corpo todo tremendo. Karl abraou-a e apertou-a contra seu peito, beijando-a nos cabelos e faces. Depois de um momento, ele levantou o rosto de Thelma 
com extrema gentileza, para beij-la nos lbios.
Em seguida, Karl tornou a enfiar a mo por baixo da blusa, levantou-a para o seio. Thelma gemeu.
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- Ser diferente esta noite, Johnny Lee? Ser uma viagem  lua e de volta?
- Como eu prometi...
Karl estendeu o brao direito em torno da cintura de Thelma, seguiram para o quarto. Ela encostou a cabea no ombro dele enquanto andavam. Continuei a observar at 
que entraram no quarto e fecharam a porta.
No queria mais ouvi-los, mas a curiosidade, foi como um m me atraindo para a parede entre os dois quartos. As vozes soaram abafadas, assim como os soluos de 
Thelma. Encostei o ouvido na parede e fechei os olhos.
- Oh, Johnny Lee, quero que me acaricie por todo o corpo desta vez. Faa o que prometeu que faria. Faa meu corpo cantar.
-  o que farei.
Eles pararam de falar, mas pude ouvir com toda nitidez o barulho das molas da cama. Os gemidos de Thelma foram se tornando cada vez mais altos e mais longos. A combinao 
de gemidos e gritos me deixou ainda mais curiosa. O ato de amor era agradvel, alm de doloroso? Por que Karl no gritava tambm?
Finalmente, depois de um grito mais alto e prolongado, houve silncio. Prestei ateno por mais algum tempo, antes de voltar para a minha cama. Era assim que costumava 
acontecer? Eu conhecia todos os detalhes cientficos. Podia descrever os hormnios, o movimento do sangue, at mesmo os impulsos nervosos, mas as emoes eram desconcertantes. 
Sexo era uma coisa, mas sexo com amor deveria ser outra diferente.
Subitamente, ouvi a porta ser aberta e mais alguns sussurros. Sa da cama e voltei  porta do meu quarto.
- Boa-noite. A despedida  um doce pesar...
Os dois riram. Divisei Karl no corredor, olhando para seu quarto. Estava vestido. Soprou um beijo.
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- Eu gostaria que voc pudesse ficar - murmurou Thelma.
- Eu tambm gostaria.
- Algum dia...
- Isso mesmo, algum dia.
Karl virou-se. Recuei um passo, enquanto ele passava pela porta do meu quarto. Ouvi Thelma fechar sua porta.
Eu gostaria que voc pudesse ficar? Para onde ele ia? O que aquilo significava?
Houve silncio por um longo momento. Depois, ouvi de novo os passos de Karl no corredor, pesados, bem altos, como se fosse proposital. Tornei a entreabrir a porta 
e observei-o se encaminhar para seu quarto. Ele abriu a porta e disse:
- Ainda est acordada, Thelma?
- No conseguia dormir. Decidi ler um pouco, mas agora me sinto cansada.
- Ainda bem. J  hora de dormir.
Ele entrou no quarto e fechou a porta. Fui encostar o ouvido na parede. Ouvi a gua na pia do banheiro, a descarga do vaso. Nenhum dos dois falou por um longo tempo. 
O silncio foi rompido por Karl:
- Boa-noite, Thelma.
- Boa-noite, Karl.
O silncio voltou a reinar. Fui para a cama, mas no dormi durante algum tempo. Como os adultos podiam se comportar como crianas, empenhando-se em jogos e fingindo? 
Como seria o amor para mim, se algum dia me acontecesse? Que tipo de homem me acharia atraente? Ou ser que nenhum homem me acharia atraente e eu seria forada tambm 
a imaginar uma vida?
Como eu gostaria de ter uma irm mais velha ou uma amiga ntima, algum a quem pudesse confidenciar
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sem medo, a quem pudesse revelar meus segredos mais profundos... Eis o que era maravilhoso em ter uma famlia, pensei. Quando se tinha uma famlia, no era preciso 
manter todos os sentimentos desconcertantes e todos os medos em ebulio dentro de uma panela fechada. As pessoas podiam ajudar umas s outras, evitar o medo.
No era a coisa mais importante?
Claro que na manh seguinte eu no disse nada sobre o que vira e ouvira Thelma e Karl fazerem na noite anterior. De qualquer forma, sentia-me culpada por espion-los. 
Karl fizera planos de voltar do trabalho mais cedo, a fim de poder sair com Thelma e comigo para comprar as coisas de que eu precisaria no incio das aulas no dia 
seguinte. A princpio, ele apenas diria a Thelma quais eram os melhores lugares. Mas ela se queixou que era uma atividade de famlia e por isso ele deveria participar. 
Karl pensou um pouco a respeito e concordou.
- Vocs devem me perdoar - disse ele. - No estou acostumado a pensar como pai. Claro que estarei aqui. Claro que quero participar de tudo que  importante.
Sei que ele tentou relaxar, fazer com que parecesse divertido, mas no era de sua natureza considerar compras algo menos que um projeto muito srio. Thelma fizera 
uma lista de roupas, enquanto eu preparara a lista de material escolar. Karl pegou nossas listas e pesquisou tudo. Sabia exatamente onde encontraramos o melhor 
preo para cada item. Cores, modas e estilos tinham um significado secundrio. Nossas compras foram planejadas com a maior eficincia, at onde jantaramos e mesmo 
qual seria o melhor preo da comida.
- Uma famlia , na verdade, um pequeno empreendimento -
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explicou Karl, enquanto comamos -, um empreendimento comercial, uma sociedade. Quanto mais for planejado, melhor ser.
- Karl at planejou nosso casamento e a lua-de-mel, a fim de aproveitar algumas ofertas especiais - anunciou Thelma, orgulhosa. - No  mesmo, Karl?
- , sim. Foi na baixa temporada, depois do feriado do Dia do Trabalho, no incio de setembro, terminadas as frias escolares. A melhor ocasio para se negociar 
bons preos.
- Mas era um lugar para onde queriam ir? - perguntei.
- Se o preo  bom, ento  o lugar certo - respondeu Karl. - As pessoas pagam mais pelas coisas que querem e precisam porque no fazem a pesquisa e o planejamento 
necessrios.
- Karl at j comprou nossas sepulturas e pagou nosso funeral. Tratou disso pouco depois do casamento.
- To cedo assim? - indaguei, inocente.
-  uma grande sujeira deixar as providncias finais para pessoas da famlia. Deve-se cuidar de tudo enquanto ainda se est vivo. No tenha medo de planejar tudo, 
Crystal. Nunca permita que algum a intimide, querendo fazer com que pense que est sendo prtica demais. Nunca se pode ser prtico demais.
Os pais de Thelma haviam-nos pedido que passssemos por sua casa depois que terminssemos as compras para a escola. Disseram que tinham uma coisa que queriam me 
dar. Ao seguirmos para l, Karl lembrou a Thelma quanto tempo deveramos ficar.
Meus novos avs tinham uma casa em estilo de rancho, pequena mas aconchegante. Thelma comentou que Karl descobrira a casa para eles pouco depois da aposentadoria 
de seu pai.
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- Cabia no novo oramento deles perfeitamente - comentou Karl, com o maior orgulho. -  outra coisa em que nunca  cedo demais pensar: sua aposentadoria. A maioria 
das pessoas no economiza o suficiente e sofre por causa disso.
- Mas no  o nosso caso - declarou Thelma.
- No, no  o nosso caso - concordou Karl, com um sorriso.
O que meus avs tinham para mim era uma mala de couro marrom, com meu nome gravado em letras douradas no lado de fora. Fiquei mais satisfeita com a mala do que com 
qualquer outra coisa que ganhara naquele dia.
- No havia necessidade de comprar uma mala de couro verdadeiro, Martha - comentou Karl para minha av.
- Claro que havia - respondeu ela, sorrindo para mim. - Por que Crystal no deveria ter as coisas mais bonitas?
Tomamos ch. Vov serviu seus biscoitos de acar, que achei deliciosos. Ela contou histrias sobre seus dias de estudante. Cursara uma pequena escola rural. Tinha 
de andar mais de dois quilmetros para chegar  escola.
- At mesmo na neve!
- At mesmo na neve, porque no tnhamos nibus escolares como vocs tm agora.
Vov tentou contar histrias similares, mas ela o corrigia a todo instante, insistindo que ele exagerava. Os dois eram simpticos e engraados. Eu comeava a me 
divertir quando Karl anunciou que tnhamos de ir para casa.
- Amanh  o primeiro dia de aula de Crystal na nova escola - declarou ele, quando minha av se queixou
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de que a visita ainda no durara uma hora. - Ela precisa dormir cedo.
- Telefone para mim assim que puder depois das aulas, Crystal, e me conte como foi seu primeiro dia - pediu minha av.
- Claro. Muito obrigada pela mala. Vov me abraou.
- O prazer  nosso. No temos muito em que gastar nosso dinheiro hoje em dia, a no ser em remdios e coisas assim.
- Vocs tm o melhor plano de assistncia mdica - disse Karl.
- No quero falar sobre isso - respondeu vov. - Agora que temos uma neta, no quero mais falar sobre minhas doenas.
Demos boa-noite e nos retiramos.
- Se no tivessem o plano que providenciei - murmurou Karl, quando entramos no carro -, ela no teria mais como pagar os remdios para o corao. So caros demais.
- Ela sabe disso - garantiu Thelma. - Apenas est excitada com Crystal. Como todos ns. Gostaria de poder ir  escola com voc amanh, Crystal. Seria maravilhoso 
comear tudo de novo.
- No  fcil trocar de escola - lembrou Karl. - No h nada para invejar.
- Eu sei. J leu Amor sobre rodas, a histria daquela famlia que vive num trailer e tem de ir de uma cidade para outra, acompanhando as ofertas de emprego para 
os trabalhadores rurais itinerantes?
- No, mame.
- No momento em que encontra o amor de sua vida, Stacy tem de deix-lo. Vou lhe dar o livro. Por falar nisso, voc deveria ler todos os meus livros. Assim poderamos 
conversar a respeito, falar sobre todas as minhas pessoas especiais. No seria sensacional?
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No respondi com a presteza devida.
- Ela ter muito para fazer agora que as aulas vo comear - disse Karl, vindo em meu socorro.
- Mas ela ter tempo de folga, no  mesmo? - insistiu Thelma. - Que melhor maneira pode haver de aproveit-lo do que lendo?
Era muito engraado, pensei. Eu teria deveres na escola e deveres em casa. No tinha a menor dvida sobre que deveres minha me considerava mais importantes.
Depois que cheguei em casa e guardei todas as minhas novas coisas, compreendi que Karl tinha razo. Eu precisava mesmo me deitar. Sentia-me to nervosa com o dia 
seguinte e o que me traria que tive dificuldade para dormir. E Karl tambm estava certo em outra coisa. No era fcil mudar de escola, fazer novas amizades, me acostumar 
a diferentes professores e normas.
Era quase como perder a memria e comear tudo de novo como uma pessoa diferente.
E no era exatamente isso o que eu me tornara, uma nova pessoa, com um novo sobrenome e uma nova famlia?
Meu antigo eu encolhia-se em algum canto escuro, trmulo, desamparado e sozinho.
"O que vai acontecer comigo?", perguntou aquela outra garota.
"Com o passar do tempo, voc acabar desaparecendo", respondi.
Era um pensamento cruel, mas era o que eu esperava que acontecesse, no  mesmo?
Era tambm o que me fazia encolher em meu novo canto do mundo, to desamparada e assustada.
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5 - Um novo amigo

Para minha surpresa, Karl decidiu que me levaria para a escola todas as manhs. Mas eu teria de voltar de nibus. Nada disso era problema, pois ele s precisava 
fazer um desvio de poucos minutos do percurso para o trabalho. Foi Thelma quem fez a sugesto.
- Assim vocs dois tero mais tempo para se conhecerem - explicou ela.
Fiquei esperando que ela acrescentasse o nome de um livro e os nomes de personagens numa situao similar, mas isso no aconteceu. Karl pensou um pouco e concluiu 
que ela estava certa.
Karl e eu no havamos passado muito tempo juntos sem a presena de Thelma. Era sempre ela quem iniciava as conversas ou fazia as perguntas. Quando Karl e eu partimos, 
naquela primeira manh, lembrei que ele no gostava de ter sua ateno desviada da direo. Por isso, no falei nada. Seguimos em silncio total, interrompido de 
vez em quando por suas explicaes sobre o percurso.
- Qual  a sua matria predileta? - perguntou ele finalmente.
- Cincias, especialmente biologia.
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Karl acenou com a cabea, os olhos fixados no carro  nossa frente.
- Eu tambm gostava de cincias, mas matemtica sempre foi a minha matria predileta. Nunca contei a ningum... - Ele fez uma pausa, oferecendo-me um pequeno sorriso, 
antes de tornar a virar a cabea para se concentrar na rua. - mas para mim os nmeros so coisas vivas. Parecem animais uni-, bi- e multicelulares, dependendo das 
combinaes, frmulas, e assim por diante.
-  interessante...
Fiquei contente. Conversar com ele reduzia um pouco o meu nervosismo. Mantinha-me distrada o suficiente para no me preocupar com a entrada iminente numa nova escola, 
cheia de estranhos.
- Tenho a sensao de que estou criando alguma coisa quando trabalho com minhas contas e balanos. Tudo tem um jeito de se relacionar com todo o resto. Aposto que 
voc pode compreender o que estou dizendo.
- Acho que sim.
Mas eu no tinha certeza se entendia mesmo. Karl me ofereceu um sorriso ainda maior.
- Quando tentvamos fazer um beb, eu acalentava a esperana de que ele ou ela crescesse para se tornar algum com quem eu poderia conversar, algum que fosse bastante 
inteligente para me compreender. Foi por isso que me senti to feliz quando Thelma disse que tambm gostou de voc. A maioria das crianas no tem nada dentro da 
cabea hoje em dia. - A expresso de Karl tornou-se sombria. - No levam a vida a srio at que  quase tarde demais... ou, em muitos casos, quando j  tarde demais. 
No conte a Thelma que eu disse isso, mas acho timo que voc no queira passar todo o seu tempo livre olhando para uma lmpada.
- Como assim?
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- A televiso no passa disso para mim, uma lmpada com cenas idiotas na superfcie. No gosto sequer da maneira como eles do as notcias. Mais parece uma revista 
de histrias em quadrinhos.
Surpreendi-me pela veemncia com que ele condenava a televiso. Podia imagin-lo entrando  fora nas casas de outras pessoas e quebrando seus aparelhos de TV com 
uma marreta. Mas quando chegava em sua prpria casa, no entanto, no fazia nada, apenas sentava em silncio, lendo suas revistas, enquanto Thelma assistia televiso, 
fascinada.
- Thelma adora seus programas - comentei.
- Tem razo. - Karl fez uma pausa, antes de acrescentar, com um sorriso: - E aprecio a maneira como voc  indulgente com isso.
- Ela sempre passou tanto tempo assistindo televiso?
Karl permaneceu calado, concentrado em guiar. Paramos num sinal de trnsito. Ele respirou fundo.
- Thelma no contou tudo sobre a tentativa de ter nosso prprio filho - confessou ele. - Tentamos inclusive a fertilizao in vitro. Sabe o que  isso?
- Sei. Tirar um vulo de uma mulher, inserir nele um espermatozide numa placa de Petri, e colocar de volta no tero da mulher.
- Voc  mesmo inteligente. No deu certo. Ela abortou. Ficou deprimida depois. Muito deprimida. - Karl alteou as sobrancelhas, alargando os olhos. - Foi nessa ocasio 
que comeou a assistir televiso desse jeito. Envolver-se com as histrias era a nica coisa que a deixava animada. Eu no podia me opor.
Ele fez uma pausa, depois me lanou um rpido olhar.
- No queria lhe dizer isso to cedo, mas voc  a minha grande esperana.
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- Eu? Como assim?
- Espero que ela se torne to envolvida com voc e com as coisas da vida real que comece a se afastar do mundo do faz-de-conta. Prendi a respirao quando voc entrou 
em nossa casa, esperando para verificar se seria atrada tambm para aquelas novelas de televiso. No imagina como fiquei contente ao descobrir que voc no sentia 
o menor fascnio por elas.
- Gosto de uma boa histria.
- E quem no gosta? Mas no podem se tornar toda a sua vida. S acontece com as pessoas que no tm nada na cabea. Voc no  uma delas.  uma moa sria e objetiva. 
Vai ser algum na vida. Quero estar presente quando lhe entregarem o primeiro diploma.
No pude deixar de sorrir. Karl j se mostrava orgulhoso, mas eu ainda no fizera nada. De qualquer maneira, era a primeira vez que ele me tratava como um pai de 
verdade.
- Tambm espero que voc esteja l - murmurei. Karl relaxou um pouco. J no apertava o volante com tanta fora. No restava a menor dvida de que comevamos a 
nos conhecer melhor. Thelma fizera uma boa sugesto.
- Vou lhe contar outro segredo, Crystal. At vejo as pessoas em termos de nmeros.
- De que maneira?
-  fcil. - Ele fez uma pausa, como se no fosse dizer mais nada, mas os lbios tornaram a se contrair num pequeno sorriso. - Algumas pessoas so nmeros positivos, 
muitas so nmeros negativos. Nunca ouviu algum dizer: "Ele  um zero total"?  assim que agrupo as pessoas em minha mente. S que tambm tenho categorias no negativo.
Karl soltou uma risada, antes de acrescentar:
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- Meu superior imediato  um menos dez. J foi um menos cinco, mas piorou.
- J ouvi falar de mulheres sendo classificadas assim. Uma mulher bonita  nota dez.
- Isso acontece, mas  um uso estpido dos nmeros. - Ele falou furioso, como se os nmeros fossem de sua exclusiva competncia, e ningum mais tivesse o direito 
de us-los. - O que acontece aqui dentro  que conta.
Enquanto falava, Karl bateu com o indicador na tmpora, com tanta fora que devia ter dodo. Depois ele sorriu e acrescentou:
- Conta, entende? Acenei com a cabea.
- L est! - exclamou ele.
Avistei a escola mais adiante. nibus parados desembarcavam passageiros. Velhos amigos se abraavam e conversavam excitados. Todos tinham a aparncia de primeiro 
dia de aula, a imagem limpa e arrumada que os pais deviam ter imposto.
- Sabe qual  o nmero do nibus que a levar para casa? - perguntou Karl.
- Sei, sim.
- Tenha um bom primeiro dia de aula.
Ele parou o carro. Fitou-me como se quisesse me dar um beijo de despedida. Esperei um momento, na expectativa, mas Karl apenas sorriu e acenou com a cabea, remexendo-se 
no banco, como se estivesse contrafeito. Ainda orbitvamos em torno um do outro como estranhos, esperando por alguma coisa que nos faria pai e filha de fato. Por 
que era muito mais difcil para mim do que para todos aqueles jovens rir e gritar na frente da escola? Que coisas maravilhosas eles haviam feito para merecer suas 
famlias, suas mes e seus pais? E que coisa terrvel eu fizera para nascer sozinha?
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- Tchau... - murmurei.
Saltei do carro. Virei-me para acenar, mas Karl j se afastava, a ateno concentrada na rua  sua frente.
Os primeiros dias de aula sempre proporcionavam uma sensao especial. As carteiras, quadros-negros, corredores, banheiros, janelas e assoalhos exibiam uma limpeza 
impecvel. Ainda se podia sentir o cheiro de detergentes, cera, limpador de vidros e tinta fresca. Vozes, passos e campainhas tinham ecos mais profundos e mais prolongados. 
Havia um clima de expectativa no ar, assim como algum mistrio. O que exigiriam de ns? Ser que nos daramos bem com os novos professores? E at que ponto nos ajustaramos 
uns aos outros? Os que j estudavam aqui antes observavam uns aos outros, querendo descobrir que mudanas um vero de diverso ou trabalho, se no as duas coisas, 
promovera em seus corpos, rostos e, acima de tudo, personalidades.
Rapazes e moas exploravam novas modas, usavam os cabelos de uma maneira diferente, vestiam-se com mais maturidade. Os mais inseguros se mantinham apartados, em 
segundo plano, fora do fluxo direto de conversas e atenes, enquanto os confiantes desfilavam de cabea erguida, procurando reconquistar logo seu territrio, olhando 
cada possvel rival com desconfiana.
Os novos alunos eram interessantes, mas tambm ameaadores. Eu quase que podia ouvir a suspeita quando olhavam para mim. A garota que esperava conquistar o papel 
principal na pea da escola especulava se eu tentaria lhe roubar o brilho. Os primeiros da turma, ansiosos por medalhas e prmios, pensavam se eu no seria uma nova 
rival. As garotas que eram lderes de seus pequenos grupos temiam que eu pudesse ser mais sofisticada e arrebatar suas fiis seguidoras. As moas e at
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os rapazes que se encontravam  margem do crculo de vida social esperavam que eu pudesse ser igual, uma amiga, uma bia em que pudessem se segurar no mar agitado 
que os adultos chamam de adolescncia.
Eu estava aqui. Desembarcara num porto seguro, vivia agora com uma famlia. Ningum podia mais afixar o rtulo de rf em minha testa, como a marca de Caim, e me 
fazer sentir to diferente que via a curiosidade e rejeio nos olhos dos que deveriam ser amigos. Ou pelo menos era o que eu esperava.
No instante em que avistei Helga, conversando e rindo com um grupo de garotas, perto do banheiro, senti um pressgio sinistro envolvendo meu corao. Ela me viu 
e cutucou algum. Todas se calaram, olhando para mim.
- Oi! - gritou Helga, acenando para que eu me aproximasse.
-Oi.
- Voc no pegou o nibus esta manh. Fiquei sem saber se continuava ou no a morar com Karl e Thelma.
- Por que eu teria ido embora?
Ela olhou para as amigas, depois para mim, deu de ombros.
- Apenas pensei... - Helga deslocou o peso do corpo de uma perna para outra, e tornou a sorrir. - Apresentei Crystal a Bernie Felder. Fomos at a casa dele. Crystal 
no queria sair. Quanto tempo ficou l?
- Um pouco.
Ento era isso, pensei. Estava sendo punida por no fazer exatamente o que ela queria, por desafi-la e ficar com Bernie.
- Crystal tambm  um gnio - acrescentou ela, os lbios contrados numa expresso desdenhosa.
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- Estou longe de ser um gnio, mas sou bem-educada. - Olhei para as outras. - Meu nome  Crystal Morris.
Elas me fitaram, imveis por um instante. Depois, uma morena baixa, com um rosto que parecia de boneca, as feies pequenas e perfeitas, estendeu a mo.
- Sou Alicia.
- E eu sou Mona - disse outra garota, com um rosto mais arredondado, cabelos castanhos-claros e lisos, olhos castanhos, os dedos curtos e grossos.
- Meu nome  Rachael Peterson. - Ela era quase to alta quanto Helga. Falou num tom formal, sem estender a mo. Mas olhou para a minha mala. -  de couro de verdade?
- , sim.
- Muito bonita.
- Obrigada. Meus avs me deram.
- Avs? Como pode ter avs? - perguntou Helga.
- Os pais de Thelma so meus avs - expliquei, sarcstica. -  assim que funciona.
- Como veio para a escola esta manh? - indagou Helga, ignorando meu sarcasmo. - No veio com Bernie, no ?
- Karl me trouxe, a caminho do trabalho. Vai me trazer todas as manhs, mas terei de voltar de nibus.
- Estou vendo que ainda o chama de Karl. Helga olhou para as amigas, com um sorriso irnico.
- No tive tanta sorte quanto vocs. No nasci numa famlia.
As sobrancelhas de Alicia se altearam. Os olhos de Mona se encheram de confuso.
- Eu disse que ela era muito inteligente - comentou Helga.
Alicia e Mona acenaram com a cabea, mas Rachael continuou a me fitar com uma expresso firme.
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- No  preciso muita inteligncia para saber que no se deve dizer coisas que vo embaraar uma aluna nova e estranha na escola. De um modo geral, isso indica uma 
certa carncia.
Virei-me e segui para a minha sala de aula, no momento em que a campainha tocava.
Bernie Felder estava na minha sala. Inclinou a cabea quando me viu, os olhos amigveis ao perceber minha aflio por ser nova e insegura. Mas ele no sentou perto 
de mim. Foi ocupar a ltima carteira na primeira fila, como se aquele lugar tivesse ficado  sua espera durante todo o vero. O professor parecia no se importar 
onde os alunos sentavam. Por isso, sentei na frente e abri minha mala.
Havia mais alunos na sala do que o normal naquele primeiro dia, para que as normas da escola pudessem ser explicadas a todos. A maioria dos alunos no prestou muita 
ateno. At mesmo o professor parecia entediado com aquela exigncia burocrtica. Mostrou-se aliviado quando soou a campainha encerrando a primeira hora de aula.
Fiz alguns amigos durante aquele dia: uma dupla de gmeas ruivas, Rea e Zoe, que me explicaram que seus pais haviam escolhido nomes com o mesmo nmero de letras; 
uma garota preta corpulenta, chamada Haley Thomas; e um garoto alto e muito magro, Randal Wolfe, que era o campeo de xadrez da escola. Havia uma garota chamada 
Ashley, sempre em segundo plano, tmida demais para dizer qualquer coisa. As gmeas usavam vestidos iguais, tinham os cabelos cortados e penteados da mesma maneira. 
Contaram que gostavam de brincar com as outras pessoas, at mesmo com os professores, passando uma pela outra, de vez em quando.
- E quando casarmos, faremos a mesma coisa com nossos maridos - comentou Rea, rindo.
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Sentamos  mesma mesa e almoamos juntos. Procurei por Bernie, mas no o avistei no refeitrio. Mais tarde, quando o encontrei no corredor, perguntei onde estivera. 
Ele parecia embaraado e bastante nervoso por eu det-lo para conversar. Seus olhos se deslocaram de um lado para outro, depois se fixaram no cho, quando ele respondeu:
- Almocei no laboratrio de biologia. O sr Eried-man deixa. Fao meus trabalhos e s vezes o ajudo a montar os equipamentos para as aulas. Ele tambm permite que 
eu realize minhas experincias de vez em quando, em geral depois das aulas. - Bernie levantou os olhos. - Como foi seu primeiro dia at agora?
- Foi bem. Gostei muito do professor de ingls e do nosso professor de matemtica.
Bernie e eu estvamos na mesma turma de matemtica.
- O sr. Albert  o melhor da escola em geometria. Temos sorte. Preciso ir para o ginsio agora - disse ele, j se afastando. - Estou sempre atrasado para a aula 
de ginstica.
Observei-o se afastar apressado pelo corredor, depois entrei na biblioteca para meu perodo de estudo. No tornei a v-lo at o final das aulas, quando peguei o 
nibus. Helga sentava na frente com Alicia. Sorriu para mim.
- Bernie est l atrs - disse ela.
- Voc no  nada engraada.
Ela riu, apesar do meu comentrio. Fui para o fundo do nibus, passando por Ashley, sentada sozinha. Ela me fitou, como se quisesse me pedir para sentar ao seu lado. 
Bernie levantou os olhos para mim, logo tornou a baix-los para o livro em seu colo. Sentei no banco ao lado e olhei pela janela.
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- Sua amiga Helga tem dito coisas a nosso respeito - murmurou ele.
Virei-me para fit-lo.
- O que voc disse?
- Alguns dos caras em minha aula de ginstica falaram de ns.
- Primeiro, ela no  minha amiga. Falei com ela pela primeira vez no dia em que o conheci. E segundo, acho que nunca poderia ser amiga de Helga. Ela no  nada 
simptica.
Bernie no mexeu os lbios, mas seus olhos sorriram.
- No podia imaginar como voc era capaz de ser amiga dela - comentou ele, para depois voltar a se concentrar no livro.
Viajamos em silncio at nossa rua. Minha parada era antes da dele. Despedi-me de Bernie. Ele acenou com a cabea e olhou para o livro. Helga j saltara. Esperava 
por mim na calada.
- No estou querendo ser mesquinha - disse ela. - Apenas brincava com voc. Gostaria que fssemos amigas.
- Por qu? - perguntei.
- Por qu?
- Isso mesmo, por que quer ser minha amiga?
- No sei. Por que uma pessoa se torna amiga de outra?
- Em geral porque tm alguma coisa em comum, gostam das mesmas coisas, querem fazer as mesmas coisas.
- O que isso significa?
- Quando voc pensar em alguma coisa que ns duas poderamos gostar de fazer juntas, pode me avisar.
Tratei de me afastar. Talvez estivesse sendo inflexvel; talvez apenas no confiasse nela. Qualquer que fosse a razo, senti-me bem pelo que fizera.
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Ouvi o som da TV quando entrei na casa. Sabia que novela Thelma estava assistindo, at que ponto era importante para ela. Mas lembrei o que Karl me dissera pela 
manh, o quanto ele esperava que eu ajudasse a trazer Thelma de volta  realidade.
- Oi - falei, ao entrar na sala.
- Oi, Crystal. Quero ouvir tudo sobre o seu primeiro dia. Espere s um instante. J vai haver um imtervalo para os comerciais.
- Vou trocar de roupa primeiro.
Ela acenou com a cabea, j concentrada outra vez na tela. Quando voltei, a televiso estava desligada. Thelma sentava-se em silncio na cadeira de balano. Olhava 
para o cho, balanando um pouco para a frente e para trs.
- Mame?
Ela levantou o rosto, os olhos vazios por um momento, acendendo-os em seguida como dois pequenos lampies.
- Oh, Crystal, estou atordoada. No final do captulo, Brock disse  me que  gay... e durante todo esse tempo pensei que ele era apaixonado por Megan. Falo srio. 
Nunca imaginei. - Ela sacudiu a cabea. - O que a me dela vai dizer?
- Ahn... no sei... - Sem saber como responder, decidi falar sobre o meu dia. - Gostei da minha nova escola.
- Como? Ah, sim, a nova escola. Como foi seu primeiro dia?
- Foi bom. Gostei da maioria dos meus professores.
- Fez amizade com algum? - perguntou ela, como se isso fosse o maior motivo para ir  escola.
- Fiz, sim. Almocei com irms gmeas.
- Gmeas?
- Isso mesmo. Rea e Zoe. So muito simpticas.
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- Rea? Onde foi que j ouvi esse nome? Rea... Ah, sim. Os filhos de ontem. Rea era a irm perdida de Lindsey.
- Esta Rea  real, mame. Posso telefonar e falar com ela. Posso ir a lugares com ela. Posso estudar com ela. Posso toc-la.  uma pessoa real.
Thelma fitou-me como se eu tivesse perdido o juzo.
- Isso  timo, querida.  melhor eu aprontar o jantar agora. No quer arrumar a mesa?
- Claro - respondi, frustrada.
Quando Karl chegou em casa, fez-me muito mais perguntas sobre a escola. Na verdade, tivemos uma das nossas conversas mais longas desde a minha chegada. De vez em 
quando olhvamos para Thelma, que se limitava a sorrir.
-  muito agradvel ter conversas de famlia reais  mesa do jantar - comentou ela finalmente.
Karl ficou radiante e piscou para mim. A sensao que eu tive foi a de que ramos companheiros numa conspirao. O telefone tocou logo depois do jantar. Karl atendeu 
e me chamou.
-  para voc.
- Isso  timo - disse Thelma. - Ela est fazendo amizades depressa.
Eu no imaginava quem poderia ser. S esperava que no fosse Helga.
- Al? - murmurei, hesitante.
- Recebi novos slides hoje, cortes transversais de tecido do corao humano. Achei que voc poderia estar interessada - disse Bernie, sem sequer se preocupar com 
qualquer cumprimento.
- Claro que estou interessada.
- Pode vir at aqui?
- Agora?
Ele no disse nada.
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- Acho que sim.
Tapei o bocal com a mo e falei com Karl e Thelma, explicando o que Bernie tinha para me mostrar.
- Contanto que voc no fique fora at muito tarde - disse Karl.
Thelma limitou-se a sorrir. Falei para Bernie:
- Estarei a assim que terminar de ajudar a tirar a mesa e lavar a loua.
Ele desligou sem se despedir.
- No precisa me ajudar - declarou Thelma. - No tem muita coisa para fazer. Pode ir.
- Tem certeza, mame?
- Claro.
Fui para o meu quarto e peguei um casaco. Quando sa, Thelma estava na porta.
- Vai at l para olhar cortes transversais de um corao humano? - perguntou ela.
- Foi o que Bernie disse. Ela balanou a cabea.
- Tenho certeza de que  interessante. Ele  um rapaz bonito?
-  simptico, mas estou realmente mais interessada nos slides.
Thelma inclinou a cabea, como um cachorrinho quando ouve um som totalmente desconcertante. Mas depois ela sorriu, at soltou uma risada, e comentou:
- No seria sensacional se voc pudesse ver tambm o amor num microscpio? Neste caso, saberamos se uma pessoa estava mesmo doente do corao. - Thelma deu outra 
risada. - Divirta-se, Crystal.
Ela voltou  cozinha. Sacudi a cabea e ri tambm. Seria sensacional se pudssemos ver sentimentos e saber se eram sinceros e verdadeiros.
Todos saberiam ento se eu estava realmente mais interessada nos slides.
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6 - Meu tutor.

Dernie abriu a porta. A casa estava escura e silenciosa.
-  a noite de folga da empregada - murmurou ele, dando um passo para o lado.
- Onde esto seus pais? - perguntei ao entrar. Depois de viver toda a minha vida em orfanatos e agora com Thelma, que mantinha a televiso ligada da maneira como 
algumas pessoas ficam com as luzes acesas, parecia estranho entrar numa casa to silenciosa.
- Saram. Foram a uma reunio, um jantar, ou qualquer coisa parecida. Deixaram os telefones na cozinha, mas nem olhei. Vamos.
Ele seguiu na frente pelo corredor at seu quarto. J montara o microscpio e deixara os slides ao lado. Havia ali tambm uma rplica de plstico do corao humano.
- Estas clulas so do msculo cardaco. Bernie deu uma olhada no microscpio. Ainda no me fitara diretamente. Fui para o seu lado e esperei at que ele saiu do 
microscpio e me disse:
- D uma olhada.
Sentei e olhei. Tive de ajustar o foco de acordo com
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a minha vista. A imagem logo se tornou clara. Fiquei espantada com os detalhes.
- Isto veio com os slides.
Bernie passou a ler uma folha do material impresso:
- Estudamos transplantes cardacos e coraes autopsiados de pacientes com deficincia cardaca congestiva crnica, causada por uma cardiomiopatia dilatada ou doena 
cardaca isqumica, em comparao com coraes normais. Nos coraes de controle, as clulas endoteliais raramente eram positivas para PALE. Em coraes de pacientes 
com cardiomiopatias isqumicas, havia manchas ntidas com esse contraste.
Ele fez uma pausa e continuou:
- Concluses: Uma alterao fenotpica na expresso endotelial antgena da microvascularidade coronariana ocorre tanto nos coraes isqumicos quanto nos coraes 
com cardiomiopatias dilatadas, conforme revelado pelo PAL-E, em comparao com os coraes de controle. A mudana pode estar relacionada com mecanismos de compensao 
na deficincia cardaca crnica prolongada.
Bernie largou o papel como se eu tivesse compreendido uma parte ou tudo. Sacudi a cabea.
- Onde conseguiu tudo isso?
- Um amigo de meu pai trabalha num laboratrio de pesquisa cardiovascular em Minnesota. Foi ele quem me mandou. Meu pai diz a todo mundo que sou uma espcie de gnio 
cientfico. As pessoas me mandam coisas. - Ele olhou para o papel. - Isso  pesquisa sria.
- Deixe-me dar uma olhada.
Bernie me entregou o papel. Reli a maior parte do que ele j lera em voz alta.
- No tenho a menor possibilidade de compreender. - Balancei a cabea. -  como se estivesse escrito numa lngua que desconheo. Sei o que algumas palavras
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significam,  claro, mas tudo junto desse jeito... Acho que descobriram uma maneira de diagnosticar um problema cardaco.
- Certo.
Bernie parecia aliviado por eu no saber muito mais do que ele. Tornei a olhar para a clula no microscpio.
-  fascinante pensar que isto j foi parte de um ser humano - comentei.
- No lhe mostrei nem a metade antes. Tenho clulas de todos os tipos de rgos humanos.
Havia um intenso excitamento em sua voz. Ele foi at seu pequeno arquivo e abriu uma gaveta. Comeou a ler as etiquetas:
- Fgado, rim, pulmes, ovrios, prstata, at mesmo algumas clulas do crebro.
Era quase como se eu tivesse ido fazer compras numa loja de departamentos,  procura de clulas, e ele fosse o vendedor. No pude deixar de sorrir.
- O que  to engraado? - perguntou ele.
- No foi nada. - No queria que Bernie se sentisse embaraado. - Apenas acho curioso ver algum com tudo isso em seu quarto.
Ele fechou a gaveta.
- Pensei que ficaria interessada e at excitada.
- E estou, Bernie, juro que estou.
Ele me fitou de lado, os olhos contrados em suspeita.
- Falo srio, Bernie. Sinto muito se dei outra impresso.
Depois de um momento de hesitao, ele tornou a abrir a gaveta.
- Quer ver mais alguma coisa?
- Eu gostaria de ver uma clula do crebro.
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Bernie a trouxe e ajeitou o slide no microscpio. Depois recuou para que eu pudesse olhar.
- J deve saber que h cerca de dez bilhes dessas clulas em seu crebro - disse ele, enquanto eu estudava a clula. - O crebro controla cada funo vital de nossos 
corpos. Controla at nossas emoes, como dio, raiva e amor.
Desta vez soltei uma risada.
- O que foi?
- Minha me, Thelma, perguntou se podamos ver o amor numa clula do corao.
-  uma antiga crena medieval, a de que o amor se concentra no corao. J falei. Est tudo no crebro. E no se pode ver os sentimentos.
- Sei disso. Foi apenas uma idia absurda.
- Tem razo,  mesmo absurda. - Ele comeou a guardar os slides. - J sabe o que quer ser?
- Talvez mdica. Tambm gosto de escrever. Posso at me tornar uma professora.
Como Bernie fizesse uma careta, resolvi perguntar:
- Voc no gostaria de ser um professor?
- Claro que no. - Ele tornou a me fitar. - No suportaria as garotas soltando risadinhas e os atletas com todos os seus problemas.
- Mas bons professores so importantes.
-  uma coisa que no me interessa. Quero fazer pesquisa pura, em vez de aturar idiotas.
- Mas por que fazer pesquisa se no se importa com as pessoas?
- Eu me importo. Apenas no quero ser... interrompido e chateado.
- Nem todos os alunos sero irritantes. Ele me fitou nos olhos.
- Voc gosta de argumentar, no ?
- No, mas no me importo de ter uma discusso.
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Bernie finalmente sorriu, uma pequena contrao nos cantos dos lbios, um brilho um pouco mais intenso nos olhos verdes.
- Est com fome?
- No. Acabei de jantar, lembra? Voc no jantou?
- No. Fiquei to absorvido em meus novos slides que esqueci. A empregada deixou comida para esquentar. Quer me ver comer?
-  to divertido quanto olhar para seus slides? Ele riu.
-  a primeira garota que j conheci com quem posso conversar com a maior facilidade.
- Acho que devo agradecer.
- Vamos.
Segui-o para a cozinha. Era trs vezes maior do que a nossa e tinha eletrodomsticos que davam a impresso de pertencer a uma estao espacial.
- O que  aquilo? - perguntei, apontando para um aparelho em cima do balco.
- Aquilo? Um aparelho de cappuccino. Minha me gosta de tomar um cappuccino depois do jantar. Sempre que janta em casa. - Ele abriu uma enorme geladeira e tirou 
um prato coberto. - Lasanha. S preciso pr no microondas por dois minutos.
Observei-o fazer isso.
- Quer beber alguma coisa? - indagou ele. - Limonada, ch gelado, refrigerante, leite, cerveja?
- Cerveja?
- Nunca tomou? - perguntou Bernie, ctico.
- Nunca. Vou beber a mesma coisa que voc. Ele nos serviu ch gelado. J havia um lugar posto para ele  mesa da sala de jantar. Era uma mesa grande, oval, de carvalho 
escuro, os ps grossos. Havia uma dzia de cadeiras de braos ao redor. Por cima havia um lustre grande, pendendo de uma corrente dourada. Por
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trs de ns, a parede era toda espelhada. Na parede do outro lado havia um armrio grande, tambm em carvalho escuro, com pratos e copos que pareciam muito caros. 
Bernie trouxe a comida e ajeitou na mesa.
- Nossa empregada  uma boa cozinheira. Se no fosse por isso, eu passaria fome.
- Sua me no cozinha?
- Minha me? Ela no  capaz de ferver gua sem queimar.
- No se pode queimar gua.
-  uma piada. Ou pelo menos deveria ser.
- Com que freqncia voc come sozinho desse jeito?
Ele pensou um pouco, como se fosse uma pergunta de resposta difcil.
- Em mdia, eu diria que quatro vezes por semana.
- Quatro?
- Eu disse em mdia. O que significa que h semanas em que janto sozinho mais vezes.
- Voc deveria virar um professor. Gosta de ressaltar as coisas... e aposto que adora corrigir as pessoas.
Bernie me fitou em silncio por um momento, depois sorriu.
- Quer fazer nosso dever de matemtica depois que eu jantar?
- Fiz antes do meu jantar.
- E eu fiz no nibus.
- Ento por que perguntou? Ele deu de ombros.
- Pensei em ajud-la.
- Talvez eu  que o ajudasse. Bernie riu de novo. Depois se tornou srio, os olhos pequenos fixados em mim com a maior intensidade. Tinha um jeito de olhar como 
se as pessoas estivessem sob um microscpio. Deixou-me um pouco constrangida.
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- O que , Bernie?
- Pensava no que devia ser para voc a vida num orfanato.
- L vamos ns outra vez - murmurei.
- Como assim?
-  o que todos querem saber.
- Eu estava apenas curioso, de um ponto de vista cientfico.
- Quer mesmo saber? Pois vou lhe contar. Foi muito difcil. Eu tinha a impresso de que no era ningum. Sentia-me em suspenso,  espera do incio da minha vida. 
Todos sentem inveja de qualquer coisa afortunada que acontece com qualquer outro. Conselheiros, assistentes sociais, os adultos que aparecem para escolher uma criana, 
todos nos fazem sentir como se estivssemos...
- Sob um microscpio?
- Exatamente. E no  nada agradvel. Voc tem medo de fazer amizade com algum, porque a outra criana pode ir embora a qualquer momento.
- E seus pais verdadeiros?
- O que tem eles?
- Por que a deixaram no orfanato?
- Eu era filha ilegtima, e minha me estava doente demais para cuidar de mim. No sei quem  meu pai... e no me importo.
- Por que no?
- No porque no - respondi, sentindo as lgrimas ardendo sob as minhas plpebras. - Portanto, para responder  pergunta dele, no era nada agradvel.
Conclu num tom muito mais rspido do que ten-cionava. Bernie no estremeceu, no desviou os olhos. Apenas acenou com a cabea.
- Eu compreendo.
- Compreende mesmo? No sei como poderia, a menos que seja rfo tambm.
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Meu nimo agora no era dos mais generosos. Bernie correu os olhos pela sala, antes de me fitar.
- Acontece que tambm sou rfo - disse ele, indiferente, como se fosse um fato bvio. - Um rfo com pais. Sempre foi assim. Minha me me trata como se eu fosse 
alguma espcie de criatura espacial. Teve uma gravidez difcil, e precisou fazer uma cesariana. Sabe o que  isso, no ?
- Claro.
- Por isso, ela no teve mais filhos. Se pudesse, provavelmente teria me abortado. Uma ocasio, quando estava zangada comigo por algum motivo, disse isso.
- Que coisa terrvel... - murmurei, balanando a cabea.
- Meu pai sente-se desapontado por eu no ser um atleta. Tenta me levar para a loja dele, quer me pr para trabalhar com seus mecnicos, para fortalecer meu corpo... 
ou, como ele diz, fortalecer meu carter. Acha que o carter vem do suor.
Bernie largou o garfo no prato, com um estrpito que me causou um sobressalto.
- Desculpe, Crystal. Sei que voc no quer ouvir esse lixo.
- No tem problema. Apenas fiquei surpresa.
- Voc se sente surpresa? Pode ento imaginar como eu fico espantado. - Ele empurrou sua cadeira para longe da mesa. - Deixam-me sozinho e compram tudo o que peo. 
Quer saber o que eu penso?
Os olhos de Bernie comeavam a ficar turvos com as lgrimas.
- Acho que minha prpria me tem medo de mim. Detesta entrar no meu quarto. Diz que no suporta olhar para os espcimes que guardo nos potes, que o fedor  grande. 
Meu quarto fede?
- No - respondi, com sinceridade.
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- Ela s se interessa em me comprar as roupas mais elegantes.  praticamente a nica ocasio em que saio com ela.
Baixei os olhos. Era estranho ouvir algum com pais parecer mais infeliz do que eu sem eles. Talvez Bernie tivesse razo; talvez houvesse mais rfos no mundo do 
que eu podia imaginar.
- Alguma vez teve um namorado no orfanato? - perguntou ele.
Levantei os olhos e sacudi a cabea.
- Todo mundo quer saber isso tambm. At mesmo Thelma me fez essa pergunta.
- Apenas queria saber que tipos de garotos voc gosta.
- Gosto dos que so honestos, inteligentes e preocupados com os sentimentos de outra pessoa tanto quanto com os seus prprios.
- E a aparncia?
- Ajuda se no tiverem uma verruga na ponta do nariz ou um olho no meio da testa.
Bernie soltou uma risada.
- Acho voc simptica e agradvel, muito mais do que a maioria das garotas que conheo e que no so rfs. Deve ter bons genes. E sua me devia ser simptica tambm.
Desviei os olhos.
- De que ela morreu? - Como eu no respondesse, Bernie acrescentou: - Qual era a doena dela?
- Era manaco-depressiva. - Levantei-me. - Morreu num hospital mental. Eu agradeceria se no contasse a ningum. Portanto, meus genes no so to bons assim, no 
final das contas. Tenho de ir agora. Disse a eles que no demoraria.
- Desculpe. No tive a inteno...
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- No tem importncia. Obrigada por me mostrar seus slides.
Encaminhei-me para a porta. Bernie foi atrs de mim. Pegou meu brao para me deter, antes que eu abrisse a porta.
- Desculpe - murmurou ele. - No tinha a inteno de fazer tantas perguntas pessoais.
- No tem problema. Preciso aprender a lidar com isso. Apenas tenho medo, mais nada... medo de me tornar como ela.
- Isso no vai acontecer.
- No? E sua convico sobre os genes?
- Voc tem tambm os genes de seu pai.
- Ele era pior - comentei, sem entrar em detalhes.
- Tem avs. H muitas combinaes e influncias sobre quem somos.
- E quando descobrimos? - indaguei, sentindo as lgrimas borbulhando contra as plpebras.
- Descobrimos o qu?
- Quem somos.
- Estamos sempre fazendo descobertas a respeito. Abri a porta.
- Mais uma coisa... - disse Bernie, saindo comigo.
- O que ?
- Obrigado por ter vindo.
Ele inclinou-se antes que eu pudesse reagir e deu-me um beijo no rosto.
- Por que fez isso? Bernie deu de ombros.
- Por causa dos meus genes, eu acho.
Ele riu, enquanto recuava para dentro da casa e fechava a porta. Continuei parada ali por um momento, com a mo no rosto, no ponto em que ele beijara. Acontecera 
depressa, muito depressa. Sentia-me desapontada.
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Era a primeira vez que um garoto fazia aquilo comigo, pensei, enquanto voltava para casa. Tentei compreender a emoo que fazia meu corao bater forte e deixava 
o rosto quente. Havia um fluxo de sensaes em meu corpo, uma corrente que se irradiava em ondas das pernas, passava pela barriga, envolvia o corao, enviando pontadas 
eltricas at as extremidades dos dedos. Aquilo era amor... meu primeiro amor?
Meus olhos s viam os olhos verdes de Bernie. Seu sorriso se ajustava como uma luva sobre o meu. Meu crebro de dez bilhes de clulas era um caleidoscpio de emoes. 
Sentia pena por ele viver como um rfo naquela casa enorme, bonita e luxuosa. Tinha vontade de voltar para lhe fazer companhia. Queria abra-lo, dizer como podia 
superar a solido, uma solido to intensa que nem mesmo todo o dinheiro do mundo, comprando todas as coisas que ele quisesse, seria capaz de impedir a dor profunda 
de seu corao. Tinha vontade de beij-lo no rosto... e depois queria que nossos lbios se encontrassem.
Queria mais ainda... e o que queria me assustava.
Fechei os olhos, mas tratei de acelerar os passos. Quando tornei a abri-los, estava parada na frente da minha nova casa.
Desatei a rir.
Era engraado. Quando sara, Thelma me perguntara se eu podia ver o amor sob um microscpio.
Talvez eu pudesse.
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7 Vendo estrelas

Pegar no sono foi mais difcil do que nunca depois que voltei da casa de Bernie. Thelma me manteve ocupada com sua conversa sobre um novo seriado em horrio noturno, 
que assistira pela primeira vez. Descreveu todo o episdio inicial em detalhes, inclusive os cenrios e os personagens principais. Minha mente vagueava mesmo enquanto 
ela falava. Podia ouvir sua voz montona, observava o rosto animado passar por todas as emoes, com um suspiro aqui, uma risada ali, desmanchando-se em sorrisos 
e lgrimas, antes de terminar com uma declarao:
-  o melhor programa em horrio noturno a que j assisti.
Prometi assistir com ela na prxima vez. Depois fui para o meu quarto, a fim de terminar os deveres de casa e organizar minha agenda. Tinha a sensao de que havia 
uma abelha furiosa zumbindo dentro de minha barriga. No consegui me concentrar em qualquer coisa. Logo me descobri na janela, olhando para as estrelas. Fiquei hipnotizada 
pelo brilho e cintilar do cu estrelado. Quando pensei a respeito, compreendi que quase nunca passara algum tempo olhando para o cu
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noturno quando vivia no orfanato. Sempre me sentia trancafiada, contida, acorrentada pelas normas burocrticas e o trabalho de escriturao, que me deixavam com 
a sensao de ser pequena e isolada, apenas outro nmero em algum registro oficial, apenas outro problema para a sociedade. Era melhor permanecer despercebida, encolher-me 
em algum canto, engolir minhas lgrimas, esconder o rosto em livros, fechar as janelas. No havia lugar para estrelas ou sonhos naquele mundo.
Mas agora, depois de apenas um dia em minha nova escola, conhecendo novas pessoas, sentindo-me algum, eu me via como renascida. Desabrochava como uma flor que ficara 
espremida entre as pginas dos livros do sistema de assistncia  infncia e adolescncia. Era livre para crescer, sentir, chorar e rir. Tinha um lar. Tinha um nome. 
Tinha um direito de estar viva e ser ouvida.
No podia deixar de me sentir como um peixe fora d'gua, no entanto. Expressar emoes, ter uma opinio e ser confiante no meio de pessoas da minha idade eram tamanhas 
novidades para mim que me deixavam ansiosa e at um pouco assustada. Agora, mais do que nunca, eu no queria fracassar. No podia ser um desapontamento para as pessoas 
que haviam investido sua f em mim. Seria a melhor aluna possvel, pensei. Karl ficaria muito orgulhoso. Ajudaria Thelma a esquecer o horror e desapontamentos em 
seu passado. Proporcionaria a ela, tanto quanto a mim mesma, uma razo para enfrentar cada novo dia.
E depois me permitiria crescer para ser uma mulher. Era isso o que mais me assustava. Enquanto ainda fosse considerada uma menina, sentia-me segura, at mesmo no 
orfanato. Vivia em algum lugar neutro, sem sexo, ignorada, sem chamar a ateno de ningum, especialmente dos meninos.
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Mas, subitamente, o beijo de Bernie mudara tudo. Sentia-me agora como A Bela Adormecida. Claro que acalentara antes pensamentos de sexo e romance, mas por algum 
motivo nunca me imaginara como a paixo em potencial de algum. Ainda era uma observadora, a menina que senta junto das garotas mais velhas, muito mais sofisticadas, 
e escuta com olhos arregalados e profundo interesse as histrias ntimas, descrevendo eventos e experincias que ainda eram mais como fantasia ou fico cientfica, 
nunca algo que poderia acontecer comigo.
Mas agora podia. Toquei em meu rosto o lugar que Bernie beijara. Levantei e fui me contemplar no espelho. Meu rosto se tornara mais amadurecido? Algum olharia para 
mim agora e me julgaria uma linda garota?
Estendi a camisola na cama. Fui para o banheiro, escovei os dentes, tirei as roupas e voltei. Mas no vesti a camisola. Nua, parei na janela e estudei meu corpo. 
Observei os contornos dos seios desabrochando. Quando me virei um pouco de lado, constatei que meu corpo comeava a assumir novas formas, como as curvas se suavizavam, 
se tornavam mais cheias.
Meu corao bateu forte quando me contemplei desse jeito. Experimentei a sensao de que atiara alguma parte do meu eu interior que estivera hibernando. Levantava 
a cabea agora e sorria, dando as boas-vindas  minha curiosidade. Isso mesmo, eu podia ouvir seu sussurro dentro de mim: Estou aqui, pronta para lev-la por uma 
nova jornada, repleta de sensaes e emoes excitantes. Os rios biolgicos internos vo se juntar e irrigar todas as partes ressequidas de voc. Qualquer pessoa 
que olhar para seus lbios, seus olhos, que tocar em sua mo, vai perceber o calor e a fome. Eu
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a transformarei numa mulher. Meu corpo transbordava com a promessa.
Vesti a camisola e me ajeitei por baixo das cobertas, at me sentir aconchegada. O travesseiro macio era como uma nuvem sob a minha cabea. Flutuava acima dos raios 
e trovoadas do excitamento que despertara em mim, mas ainda assim me revirei na cama por horas, at que finalmente me acomodei num bolso quente de sono, exausta.
O barulho de portas fechando, passos rpidos e os gritos de Thelma me arrancaram da escurido. Fiquei prestando ateno. Algum subiu a escada depressa, Karl ou 
Thelma, entrou no quarto. Thelma chorava. Levantei-me e fui at a porta.
Ela estava parada no corredor, de casaco. Viu-me e enxugou as lgrimas que escorriam pelas faces, com tanta intensidade que at pingavam do queixo.
- Oh, Crystal, voc acordou! Desculpe termos acordado voc, mas talvez seja melhor assim.
Karl saiu do quarto, tambm de casaco.
- O que aconteceu? - perguntei.
-  minha me! - exclamou Thelma. - Acaba de ser levada para o pronto-socorro. Temos de ir. Meu pai est to transtornado que pode sofrer um derrame.
- Devo me vestir para ir tambm?
- No, no - interveio Karl. - Podemos demorar horas e horas. Trate de dormir. Amanh de manh, se no tivermos voltado a tempo, pegue o nibus para a escola. No 
precisa se preocupar conosco.
Ele passou o brao pela cintura de Thelma. Ela estendeu os braos e me apertou por um momento. Depois, os dois se afastaram, apressados.
- No h nada que eu possa fazer? - ainda gritei.
- No, no - respondeu Karl. - Apenas volte a dormir.
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Os passos foram se tornando mais baixos,  medida que eles dobravam o corredor, a caminho da garagem.
Fui at a janela do meu quarto e observei o carro partir. Afora isso, a rua estava deserta, os focos de iluminao dos lampies criando uma colcha branco-amarelada 
na escurido at a esquina, onde o carro de Karl virou e desapareceu na noite.
O silncio na casa era absoluto. Tudo acontecera to depressa que a sensao era a de que fora um sonho, ainda mais depois que voltei para baixo das cobertas e fechei 
os olhos. Foi ainda mais difcil ento pegar no sono, mas consegui adormecer pouco antes da primeira claridade do dia. O despertador me acordou. Se no fosse por 
isso, eu teria dormido durante a maior parte da manh.
Tomei um demorado banho de chuveiro, preparei um mingau de aveia. Enquanto comia, olhei para o telefone, na expectativa de que Karl ligasse antes do nibus chegar. 
Mas isso no aconteceu. Senti-me tentada a ir ao hospital, em vez da escola, mas pensei que isso poderia deix-los ainda mais transtornados. Terminei de me vestir, 
peguei os livros e sa para esperar o nibus.
Helga j estava no ponto, com Ashley Raymond, cuja me, Vera, era praticamente a nica vizinha com quem Thelma falava - e s porque Vera tambm gostava de assistir 
s novelas da televiso.
- Karl no vai lev-la para a escola hoje? - perguntou Helga.
Ashley era mais ou menos da minha altura, com cabelos castanhos-claros, olhos azuis grandes demais para a boca e o nariz pequenos. Ela me fitou. Sempre me parecera 
uma cora assustada. Eu no trocara mais do que quatro palavras com ela antes.
- Aconteceu alguma coisa com minha av ontem 
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noite. Karl e Thelma foram para o hospital. Ainda esto l.
Se havia alguma solidariedade em Helga, estava enterrada to fundo em seu corao que uma sonda de petrleo levaria duas semanas para descobrir. Ela sorriu e cutucou 
Ashley.
- Bernie vai ficar feliz. Ter algum para sentar-se ao lado dele.
- O que houve com sua av? - perguntou Ashley.
- No sei. Eles saram to depressa que nem tive tempo de perguntar.
- Eu a conheo - disse Ashley. - Ela  muito simptica.
-  mesmo.
- Quantas vezes voc j se encontrou com ela? - indagou Helga, como se eu no tivesse o direito de comentar.
- No  preciso muito tempo para saber quem  simptico e quem no .
Fitei-a com uma expresso furiosa. Ela teve de desviar os olhos, mas soltou uma risadinha.
O nibus chegou e embarcamos. Fui para o fundo, onde Bernie estava sentado, lendo. Ele nem percebeu a minha presena at que me instalei ao seu lado.
- O que est fazendo no nibus? - perguntou ele, surpreso.
Bernie sacudiu a cabea quando expliquei.
-  uma coisa terrvel.
- Espero que ela fique boa.
- Eu tambm. - Depois de uma pausa, ele acrescentou: - Minha me tem pavor de ficar velha, mas no porque pode morrer. Tem medo das rugas, da pele ressequida e cabelos 
brancos. Fez duas cirurgias faciais s este ano e...
Bernie baixou a voz para um sussurro ao dizer:
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-... uma cirurgia na barriga. Voc parece cansada.
- E estou mesmo.
Ouvimos risadas altas e levantamos os olhos. L na frente, Helga e outros alunos conversavam, olhando para ns.
- Quando conheci Helga, pensei que seria timo ter uma amiga. Nunca tive uma amiga ntima. Quase que cometi um grande erro.
- Os bosques esto cheios de lobos. - Bernie desviou os olhos do grupo l na frente para me fitar. - Serei seu grande amigo, se quiser.
Sorri para ele.
- Claro que quero.
Bernie voltou a se concentrar no livro, como se olhar para mim fosse doloroso para ele. Fechei os olhos e exclu as conversas e risos, at chegarmos  escola, para 
o incio do meu segundo dia.
Foi quase impossvel me concentrar nas aulas. Eu no podia deixar de especular e me preocupar. Na hora do almoo, Bernie me acompanhou at o telefone pblico. Ficou 
esperando enquanto eu ligava para casa. O telefone tocou e tocou, at que a voz de Karl saiu da secretria eletrnica, pedindo  pessoa para deixar o nome e nmero, 
hora da chamada e um breve relato sobre o propsito da ligao. Parecia mais com uma mensagem num escritrio do que numa casa. Deixei meu nome.
- Ainda no tem ningum em casa - informei a Bernie.
Ele pensou por um momento.
-  um bom sinal. Significa que continuam fazendo o que precisava ser feito por ela.
Bernie relutou um pouco em voltar ao refeitrio para almoar comigo, mas acabou concordando. Sentamos
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numa mesa pequena, no fundo. Dessa posio, pudemos constatar que muitos nos observavam e falavam a nosso respeito.
- A sensao  que estamos num aqurio - gracejou Bernie.
Ele comeu e leu seu livro de cincias, com pausas ocasionais para algum comentrio sobre as aulas.
Comecei a me perguntar se o beijo de Bernie no fora imaginrio. Ele demonstrava bem pouco interesse por mim, at tivera um sobressalto quando nossos braos roaram. 
Outras garotas que tinham namorados, sentavam-se mais perto deles, algumas quase no colo, rindo e falando como se no houvesse mais ningum no refeitrio. Quando 
a campainha soou, encerrando a hora do almoo, saam de mos dadas. Bernie e eu fomos andando lado a lado, mas segurando nossos livros, como se fossem coletes salva-vidas 
e estivssemos no convs de um navio afundando. Compreendi logo, pela maneira como algumas garotas nos observavam, sussurrando e rindo, que j ramos o alvo de piadas 
de mau gosto.
Minha aula seguinte estava quase no meio quando o alto-falante-na parede estalou e uma voz solicitou que o professor me mandasse para o gabinete do diretor. Todos 
me fitavam quando levantei e deixei a sala. A secretria do diretor me disse para sentar e esperar. A porta foi aberta poucos minutos depois. Avistei Karl com o 
sr. Nissen. No precisava ouvir as palavras. As expresses em seus rostos diziam tudo.
- Eu no queria tir-la da escola, Crystal, mas Thelma quer voc e acha que deve ir direto para casa comigo.
- Claro.
Eu no sabia o que mais dizer.
- No se preocupe com os deveres - disse o sr. Nissen. - Mandarei entreg-los em sua casa.
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- Ela no ficar ausente da escola por muito tempo - assegurou Karl.
- Pode tirar o tempo que for necessrio - declarou o sr. Nissen. - Por favor, apresente minhas condolncias  sra. Morris.
Lembrei que deixara minha mala, livros e cadernos na carteira. Voltei apressada para busc-los. Todos me olharam quando entrei na sala. O professor fez uma pausa. 
Recolhi os livros e os cadernos, guardei na mala.
- O que est fazendo, Crystal? - perguntou o sr. Sadler.
Fui at a frente da sala. No era uma coisa que eu quisesse gritar.
- Desculpe, sr. Sadler, mas tenho de voltar para casa agora. Minha av morreu.
- Ahn... - Ele parecia embaraado e confuso, como algum que pisava em gelo. - Claro. Sinto muito.
O professor esperou que eu me retirasse antes de recomear a aula. Ao me encaminhar para a porta, olhei para Bernie. Ele me acenou com a cabea, o rosto to srio 
e tenso quanto um mdico dando ms notcias aos parentes de um paciente. Sa apressada, fechando a porta sem fazer barulho. Segui pelo corredor at o lugar em que 
Karl me esperava. Deixamos a escola juntos, nenhum dos dois falando, at chegarmos ao carro.
- O que aconteceu? - perguntei ento.
- O mdico disse que ela no tinha mais do que quinze por cento do msculo cardaco funcionando quando chegou no hospital. Fizeram tudo o que podiam para salv-la. 
E ela resistiu por mais tempo do que julgaram que seria possvel. Thelma diz que foi por sua causa.
- Minha?
- Ela diz que a me queria continuar conosco por mais tempo para v-la crescer em nossa famlia.  o que
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ela acredita... e que torna o fato ainda mais triste. Lamento que voc tenha um comeo to difcil conosco.
- Como est vov? Karl balanou a cabea.
- Frgil. No sei como ele vai sobreviver sozinho. Apesar de doente, a me de Thelma sempre cuidava dele.
- O que vai acontecer com ele?
- Assim que eu puder, comearei a procurar uma boa residncia para adultos. No podemos aceit-lo em nossa casa. No temos mais espao.
Se eu no tivesse ido morar com eles, teriam o espao necessrio, pensei. E isso me deixou angustiada. Vov ficaria ressentido comigo? E Thelma?
- Posso partilhar meu quarto com ele - sugeri.
- No, Crystal, no pode. Alm do mais, no podemos lhe dispensar a ateno que ele vai precisar. Thelma no  capaz de cuidar de doentes. Se tenho um resfriado, 
ela entra em pnico. No fique doente. Aqueles lamentveis programas de televiso metem as idias mais incrveis na cabea de Thelma sobre uma doena e outra. Mencione 
uma dor, e ela vai relatar um episdio de Hospital Geral que se ajusta ao caso. Mas no precisa se preocupar com seu av. Cuidarei dele. Com seu seguro e penso, 
ele pode ir para uma tima casa.
Isso no fez com que eu me sentisse melhor sobre a situao, mas no falei mais nada. Ao entrarmos na casa, vi o brilho do aparelho de televiso. Quando nos adiantamos, 
porm, no ouvi qualquer coisa.
- Voltamos! - gritou Karl, parando na porta. Thelma sentava-se em sua poltrona predileta, olhando para a tela de televiso, o rosto molhado de lgrimas. Levantou 
os olhos para mim. Os ombros tremeram quando murmurou:
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- Pobre vov... Queria tanto ter uma neta, mas morre no momento em que consegue.  muito injusto. Como se... como se a eletricidade fosse cortada numa parte importante 
de um dos meus programas.
- Sinto muito. - Eu tinha certeza de que a morte da me significava mais para ela do que um corte de energia eltrica. - Ela era muito simptica... e eu esperava 
conhec-la melhor.
- Ah, minha pobre querida, agora voc no tem mais av!
Eu no sabia se devia ou no me adiantar para abra-la. Ela desviou os olhos de mim, tornou a fix-los na televiso.
- Quer comer alguma coisa, Thelma? - Karl virou-se para mim. - Ela no comeu nada durante o dia inteiro.
- Vou preparar uma coisa para voc, mame. Ela sorriu atravs das lgrimas.
- Talvez um ch e torradas com um pouco de gelia. E depois venha se sentar um pouco ao meu lado.
Karl e eu fomos para a cozinha. Arrumamos o ch e as torradas numa bandeja. Quando a peguei, para levar a Thelma, ele perguntou:
- Acha que vai ficar tudo bem aqui? Tenho de ir ao escritrio por alguns minutos.
- No se preocupe. No haver problemas.
Ele avisou a Thelma o que ia fazer, mas no teve resposta. Observei-a dar uma mordida numa torrada e tomar um gole de ch, os olhos se deslocando com os movimentos 
dos atores na tela. Desligar o som parecia ser o seu gesto de luta.
- O funeral ser depois de amanh - anunciou ela, durante o comercial. Os olhos permaneceram fixados na tela, como se tivesse medo de desmoronar se no fizesse isso. 
- Karl j providenciou tudo.
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- Onde est vov?
- Em casa, com alguns amigos. Pessoas da sua idade. Ele se sente melhor assim. - Thelma mordeu de novo a torrada, tomou mais um gole de ch. - Quando voc perde 
algum que ama,  melhor permanecer em algum lugar que  familiar, fazendo as coisas a que est acostumado. Vov no ia querer que eu perdesse meu programa.
Foi nesse instante que o programa recomeou. Olhei para ela, depois para a tela da televiso. Os personagens obviamente gritavam um com o outro, em alguma discusso. 
De que adiantava assistir sem o som? Thelma balanou a cabea, como se pudesse ouvir as palavras mesmo assim.
- No seria melhor se conversssemos, mame? - perguntei, suavemente.
- Conversar? Sobre o qu? No sobre vov. - Thelma tornou a sacudir a cabea, com mais vigor. - No quero falar sobre sua morte. Ela no deveria morrer.
Ela falava com firmeza, como se algum tivesse reescrito um roteiro.
- Sua av queria acompanhar o crescimento da neta. Eu disse a Karl que deveramos ter adotado uma criana h muito tempo. No deveramos ter esperado para adotar 
voc. Veja agora o que aconteceu. No podia ser assim. De jeito nenhum.
- No podemos planejar nossas vidas como uma novela de televiso, mame. No temos esse poder.
Tive vontade de acrescentar "por enquanto", porque achava que algum dia a cincia desvendaria todos os mistrios da gentica e grande parte de nossas vidas seria 
predeterminada. Mas aquele no era o momento para levantar esse assunto, pensei.
- No quero falar sobre isso, Crystal.  triste demais.
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- Thelma tornou a olhar para a televiso. - Voc nunca chega em casa a tempo para assistir este programa. Mas j lhe falei a respeito.  aquele em que a filha tem 
AIDS. Os pais culpam um ao outro. Est vendo?
Olhei para o cho. Estava longe de ser uma perita no luto por uma pessoa amada. At agora, nunca tivera pessoas amadas. Nenhuma morte jamais me afetara profundamente. 
Mesmo quando lera sobre minha me verdadeira, fora mais como ler uma histria sobre outra pessoa. No tinha seu rosto em minha mente, nem sua voz na memria. No 
podia record-la a me acariciar, a me beijar, a conversar comigo. Nunca tivera a morte de pai, avs ou quaisquer parentes para lamentar. Nunca tivera uma amiga ntima 
nos orfanatos em que fora criada para me sentir desolada com sua morte ou partida.
Ser sozinha tinha suas vantagens, pensei. S podia lamentar por mim mesma. S precisava sentir pena de mim mesma.
Num certo sentido, Helga tinha razo. Eu no conhecera minha nova av por tempo suficiente para sentir sua morte to profundamente como outras crianas que perdessem 
seus amados avs. Eu no deveria estar chorando? No deveria estar metida em algum canto, soluando? No tinha nenhuma certeza sobre meus sentimentos e aes. Nem 
mesmo sabia se devia criticar Thelma pelo que ela fazia agora. Talvez fosse um erro afast-la de suas distraes. Talvez fosse um erro for-la a enfrentar a realidade 
da morte da me. Ela terminou de comer a torrada e me sorriu.
- Fico contente por voc estar aqui comigo, Crys-tal. Por outro lado, lamento que esteja perdendo as aulas.
- No tem problema. Vou receber os deveres em casa.  bem provvel que Bernie traga tudo quando voltar da escola.
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- Isso  timo. Voc bem que poderia sentar mais perto de mim.
Foi o que fiz. Thelma pegou minha mo. Depois, tornou a olhar para a tela da televiso silenciosa. Observei seu rosto. O jogo de sombras e luz alterava a expresso, 
projetando primeiro um sorriso, depois um ar de compaixo ou repulsa. De vez em quando ela suspirava ou estalava os lbios em crtica. Arregalei os olhos em espanto. 
Era como se Thelma soubesse com certeza o que os personagens diziam.
Tive vontade de perguntar como ela podia assistir ao programa daquele jeito. Queria lembr-la de que o som estava desligado, mas no fui capaz. Seria como dizer 
a algum que no era real o que via, no passava de fico.
Mas Thelma precisava da fico, pensei. Quem era eu para dizer que ela no podia t-la? Ou no devia acreditar?
Deixei-a apertar minha mo com mais fora ainda e continuei sentada a seu lado, em silncio.
Foi assim que Karl nos encontrou quando voltou do escritrio.
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8 - Verdade ou desafio.

Depois do jantar, Ashley e sua me, Vera, vieram dar os psames a Thelma. Ashley trouxe todas as matrias que eu perdera naquele dia. Trouxe inclusive os deveres 
das aulas que eu partilhava com Bernie. Informou que ele lhe entregara no nibus. Fiquei decepcionada, porque esperava que Bernie viesse pessoalmente. s vezes meus 
olhos eram como janelas com as cortinas abertas. Ashley percebeu meu desapontamento.
- Bernie  tmido demais - disse ela. - Sou uma das poucas pessoas com quem ele fala, de vez em quando... e apenas porque nunca rio dele. Acho que Bernie  brilhante.
- Pois eu tenho certeza.
Levei Ashley para o meu quarto, enquanto sua me conversava com Thelma e Karl.
- Como era a vida no orfanato? - perguntou ela, assim que ficamos a ss. Haveria algum que olhasse para mim sem especular a respeito? - Os adultos eram cruis com 
voc?
- No  como um orfanato num romance de Dickens.
- O que  um romance de Dickens?
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- Charles Dickens? Contos de Natal? Oliver Twist? Tempos difceis? Nenhuma destas obras lembra nada a voc?
Franzi o rosto, espantada.
- Claro, claro... - respondeu Ashley, mas ainda com uma expresso vazia.
- O que eu quis dizer foi que no  como viver com sua prpria famlia, tendo seu prprio quarto, mas voc tambm no  obrigada a jogar carvo na fornalha ou lavar 
o cho, no precisa vestir trapos ou comer restos.
- S de pensar nisso fico arrepiada.
- Ningum tinha de comer o que no quisesse. No me sentia feliz ali, mas tambm no era torturada.
Ela balanou a cabea.
- Helga diz que as garotas que vivem em orfanatos perdem a virgindade mais depressa.
- O qu? Que direito ela tem de dizer uma coisa to absurda? Como ela pode saber qualquer coisa sobre garotas que vivem em orfanatos?
Ashley deu de ombros.
-  o que ela diz.
- Para informao sua e de Helga, no  o que acontece.
Percebi que Ashley me fitava fixamente e acrescentei:
- No perdi a minha. Mas Helga d a impresso de que perdeu a dela.
Ashley riu.
- s vezes acho que ela bem que gostaria. Pela maneira como d em cima de alguns dos garotos. Ela me disse que deixaria Todd Philips fazer qualquer coisa que quisesse 
se a convidasse para sair.
- Helga disse isso?
- Disse - respondeu Ashley, os olhos grandes ainda maiores.
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- Ela pode ficar desapontada.
- Por qu? Sempre pensei que era a coisa mais maravilhosa que podia acontecer.
- Quem lhe disse isso? Ela tornou a dar de ombros.
- Apenas escuto o que as outras dizem a respeito, especialmente as que j fizeram sexo e se gabam no banheiro das meninas. Falam como se fosse uma coisa maravilhosa.
- No sei dizer, pois eu nunca... - Eu j ia revelar a Ashley que nunca antes fora beijada, mas no confiava que ela guardaria essa informao para si mesma. - Nunca 
fui de beijar e contar.
Conversamos um pouco sobre beijos no cinema e quem achvamos que beijava melhor. Percebi que Ashley sentia tanta curiosidade quanto eu sobre como seria o beijo de 
um garoto.
Depois que Ashley foi embora, comecei os deveres de casa, ansiosa em pensar em outra coisa que no em garotos. Antes de Karl e Thelma irem para a cama, ele voltou 
ao meu quarto.
- Talvez voc devesse ir  escola amanh, Crystal. No h sentido em ficar sentada aqui durante o dia inteiro.
- Thelma no vai precisar de mim? Ele pensou por um momento.
- Ela vai passar o dia dormindo.
- Mesmo assim, acho melhor ficar por perto. Karl sorriu.
- Est bem. Provavelmente voc tem razo.  bom ter mais algum na casa que se importa com ela.
Pensei que Karl poderia avanar por meu quarto e me dar um beijo de boa-noite. Mas ele ficou parado ali, balanando a cabea por mais um momento, depois me desejou 
uma boa-noite e fechou a porta.
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Leva tempo para as pessoas se tornarem pai e filha, pensei; e em alguns casos  preciso ainda mais tempo.
Thelma no se levantou to cedo quanto costumava fazer na manh seguinte. Karl preparou o caf da manh para ela. Depois, pediu-me para ficar de olho nela. Disse 
que ia verificar como estava vov antes de ir para o trabalho. Ofereci-me para acompanh-lo, mas ele alegou que assim teria de me trazer de volta para casa, o que 
aumentaria demais seu tempo de ausncia do escritrio.
- Ficaria surpresa se visse como o trabalho se acumula - comentou ele.
- Eles no podem compreender a situao na companhia?
- Ningum me supervisiona mais do que eu mesmo. - Os olhos de Karl se tornaram solenes. -  o segredo do sucesso, Crystal: exigir mais de si mesmo do que os outros 
exigem. Voc  o seu melhor crtico, entende?
- Entendo.
Ele saiu de casa. Fiquei lendo meu livro de histria, alm do ponto determinado, tentando imaginar qual seria o prximo dever. Thelma apareceu na porta da sala de 
estar pouco mais de uma hora depois. Tinha os cabelos desgrenhados, os olhos injetados. Estava muito plida. Dava a impresso de que envelhecera anos em apenas uma 
noite. Trazia meia dzia de lenos de papel na mo. Ainda de camisola, arrastou-se pela sala, em chinelos que pareciam ser de Karl. Arriou em sua poltrona predileta 
com um profundo suspiro.
- Quer alguma coisa, mame? Ela sacudiu a cabea.
- No gosto de lembrar de minha me. Di demais. Pensei em pegar o telefone e ligar para ela esta
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manh, como costumava fazer antes de Sombras ao amanhecer. Mas depois recordei que ela morreu. Thelma fungou e enxugou os olhos. - O que posso fazer?
- Podemos conversar, mame. s vezes as pessoas se sentem melhor quando falam sobre o que as angustia.
Meus conselheiros sempre usavam esse argumento em todos os orfanatos por que passei. E havia mesmo algum fundo de verdade nisso. Mas Thelma balanou a cabea.
- No posso. Cada vez que penso nela, comeo a chorar. No posso.  melhor no pensar.
Ela pegou o controle remoto da televiso como se fosse um vidro de plulas prometendo alvio. Ligou o aparelho e foi trocando de canais at encontrar um programa 
que apreciava. E dessa vez deixou o som ligado. Comeou a reagir ao que assistia, sorrindo, rindo, mostrando-se preocupada. Eu recomeara a ler quando ela disse, 
abruptamente:
- Tenho medo de ir ao funeral amanh. Por que devemos ter funerais?
-  a nossa ltima chance de nos despedirmos.
 verdade que eu nunca tinha comparecido a um funeral antes e a perspectiva me causava quase a mesma apreenso.
- No quero me despedir. - Ela soltou um gemido. - Detesto despedidas. Gostaria de poder ficar sentada aqui e assistir televiso. Assim, se eu ficar triste, posso 
trocar de canal, ver outra coisa.
- Meu psiclogo no orfanato sempre me disse que  pior evitar seus problemas, mame.  melhor enfrent-los.
Ela me fitou em silncio por um longo momento, depois sorriu.
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- Voc  inteligente. Temos sorte por voc estar aqui. Eu gostaria de comer. Pode me fazer ovos mexidos com torradas?
- Claro.
- E faa um caf tambm - acrescentou ela, quando eu j saa da sala, para depois voltar a se concentrar no programa.
Thelma permaneceu ali durante a maior parte do dia, s se levantando para ir ao banheiro. Preparei o almoo tambm. Ela no falava, a no ser quando tinha algum 
comentrio a fazer sobre o programa que assistia. O ponto alto de seu dia comeou quando a primeira novela entrou no ar. Depois disso, eu poderia muito bem ter ido 
para a escola. Karl ligou para perguntar como ela passava e avisar que arrumara algum para cuidar de vov. Informei que Thelma no saa da frente da televiso.
- Talvez ela esteja melhor desligada assim - comentou Karl.
- No estou fazendo muita coisa.
Tive vontade de acrescentar que ele tinha razo, eu deveria ter ido para a escola.
- Sua simples presena a j  importante, Crys-tal.  bem provvel que ela no comeria nada de outra forma.
Karl estava certo nesse ponto, mas ainda assim eu me sentia mais como uma criada do que como uma filha. Queria conversar. Queria ouvir Thelma contar histrias sobre 
sua me, como fora ser sua filha, as coisas que haviam partilhado, todos os momentos preciosos de que ela sentiria saudade. Queria sentir que era parte de uma famlia, 
no me encontrava mais no orfanato, entre estranhos.
Quando Thelma comeou a chorar pelo que acontecia
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com uma personagem na novela, levantei e fui para meu quarto. Como ela podia se importar mais com as pessoas do mundo de faz-de-conta? Seria por consider-lo mais 
seguro? O programa terminava, e voc no tinha mais de pensar a respeito? Seria por isso? Mas Thelma parecia pensar nos personagens constantemente, no apenas enquanto 
o programa era transmitido. Eu no conseguia perceber o menor sentido.
Pouco depois, a campainha da porta tocou. Eram Ashley e sua me outra vez, s que agora Bernie as acompanhava. Ofereci um sorriso, para Bernie acima de tudo, e murmurei:
-Oi.
- Como ela est? - perguntou a sra. Raymond.
- Fica assistindo televiso, tentando no pensar no que aconteceu.
- No posso culp-la por isso - comentou a sra. Raymond.
- Trouxemos todos os seus deveres de casa - informou Ashley. - E Bernie veio junto para explicar a matria nova.
- Obrigada.
Dei um passo para o lado e todos entraram. A sra. Raymond foi falar com Thelma. Levei Ashley e Bernie para o meu quarto. Bernie abriu o livro de matemtica e ps-se 
a falar sobre os novos problemas imediatamente. Escutei e acenei com a cabea quando ele perguntou se eu havia entendido.
Ashley sentou na minha cama e ficou nos observando estudar. Quando as explicaes terminaram, Bernie sentou na frente do meu computador.
- Quando ser o funeral? - perguntou ele.
- De manh. No haver muita gente presente. O pai de Karl no tem condies de viajar, e seu irmo em Albany no poder vir. O irmo caula est no mar.
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Nenhum dos primos de Thelma vir. Alguns dos amigos mais antigos de meus avs vo comparecer.
- Minha me tambm vai - informou Ashley. - Mas no quer me deixar acompanh-la. Diz que tenho de ir  escola.
- Ela tem razo - declarou Bernie. - A escola  mais importante. Os funerais so realmente desnecessrios.
- Desnecessrios? - repetiu Ashley. - Como pode dizer uma coisa dessas?
- Quando algum morre, est acabado. No h sentido em desperdiar mais tempo com isso.
-  uma coisa horrvel para se dizer - protestou Ashley. -  preciso prestar a ltima homenagem.
- Para qu? A pessoa morreu.  melhor se despedir de um retrato. Detestei ir ao funeral de meu av. Houve uma festa grande depois, com a presena de muitas pessoas 
que nunca o conheceram direito. Foi apenas um pretexto para uma festa.
- No vamos ter nenhuma festa depois.
- Ainda bem - disse Bernie.
- Isso  cruel, Bernie Felder - acusou Ashley.
- Estou apenas sendo realista. Quando morre, voc retorna a alguma forma de energia, que vai para outra coisa.  s isso.
- Que outra coisa? - indagou Ashley, as sobrancelhas to erguidas que pareciam estar no meio da testa.
- No sei. Talvez... uma planta ou um inseto.
- Um inseto? Crystal, voc no acredita nisso, no ?
- No sei em que acredito. s vezes imagino que minha me verdadeira est comigo, o seu esprito, mas depois penso que isso  um absurdo.
- No tem nada de absurdo. Ao contrrio,  uma coisa linda - declarou Ashley. - No me tornarei nenhum inseto, Bernie Felder. Talvez voc se torne.
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-  possvel - respondeu Bernie, indiferente.
- No se importa?
- Por que deveria me importar? No conheo qualquer coisa diferente.
Ashley soltou um grunhido.
- Os cientistas so as pessoas mais chatas do mundo. Detesto a matria, ainda mais as experincias com todas aquelas substncias qumicas fedorentas e bichos mortos. 
As experincias me deixam enojada.
- Aposto que posso pensar numa experincia que voc gostaria. Por exemplo, que tal uma experincia para descobrir que tipos de beijos gostamos mais? - sugeri.
- Crystal! - exclamou ela, lanando um olhar para Bernie.
- Como seria a experincia? - perguntou ele, excitado.
Inventei uma experincia que era quase como uma competio... o julgamento do melhor beijo. Bernie ouviu e acenou com a cabea sem rir. O rosto de Ashley ficou avermelhado 
quando me virei para perguntar se no queria entrar.
- Uma idia interessante, mas no posso considerar uma experincia cientfica... - Bernie pensou por um instante, depois balanou a cabea para mim. - Mas eu gostaria 
de participar.
- timo, Bernie.
- Pensei que estivesse apenas brincando, Crystal! - exclamou Ashley.
- No seja covarde, Ashley - declarou Bernie. - No vamos fazer nada de mais srio... apenas dar um beijo.
- Mas no quero ser julgada em comparao com Crystal... nunca beijei um garoto antes! - disse ela, virando-se para mim, em busca de ajuda.
Tive vontade de fazer Ashley se sentir melhor,
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dizendo que tambm nunca beijara um garoto. Mas preferi ocultar minha inexperincia de Bernie.
- Ter de jurar que vai guardar segredo. Sabe o que algum como Helga diria se descobrisse.
Ashley olhou para Bernie e depois para mim, apreensiva.
- No vai engravidar nem nada parecido - prometeu Bernie. - Vai apenas descobrir mais sobre si mesma... e ser um conhecimento que a tornar mais sbia e mais forte. 
 esse o propsito e poder do conhecimento.
- Ele tem razo, Ashley. Aceita?
- Talvez... Vou pensar nisso.
Seu tom era cauteloso, mas dava para perceber que ela se sentia to fascinada pela idia quanto ns. Bernie se ofereceu para organizar o que chamou de procedimentos 
de controle. Disse que estaramos mais seguros se nos reunssemos em sua casa. Com alguma relutncia, Ashley acabou concordando.
-  como brincar de mdico - sussurrou ela para mim, quando samos do quarto.
- J fez isso alguma vez, Ashley?
Ela desviou os olhos para Bernie, voltou a me fitar.
- No. E voc?
- Tambm no, mas sempre tive vontade. Ashley respirou fundo.
- Eu tambm.
Ela se afastou apressada para se encontrar com a me e ir embora, assustada com sua confisso.
O funeral no dia seguinte foi simples e demorou menos tempo do que eu esperava, provavelmente porque Karl organizou tudo to bem. Depois do servio na igreja, o 
carro da agncia funerria nos levou ao cemitrio. Vov parecia muito frgil, apoiando-se no brao de
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uma enfermeira particular, contratada por Karl. Thelma dava a impresso de uma pessoa drogada, desde o momento em que acordou e se vestiu. Sempre que eu a observava, 
constatava que tinha os olhos desfocados e distantes. Era como se estivessem abertos e fechados ao mesmo tempo, sem que ela visse ou ouvisse qualquer coisa ao seu 
redor. Refugiara-se dentro de sua prpria mente. Talvez estivesse reprisando algum captulo de uma de suas novelas.
Karl conduziu-a durante todo o tempo, de uma forma gentil e eficiente. Algumas pessoas do seu escritrio foram ao servio na igreja, mas no cemitrio s havia dois 
casais idosos, amigos da me de Thelma, seu pai com a enfermeira, Thelma, Karl, eu, a me de Ashley e o ministro.
No era um bom dia para um funeral. Fazia muito calor, o cu quase no tinha nuvens, exibia uma tonalidade turquesa. O ar no cemitrio estava impregnado com o aroma 
da grama recm-cortada. Os passarinhos voavam de uma rvore para outra, esquilos corriam entre as lpides, como se todo o cemitrio tivesse sido criado para sua 
diverso.
No pude deixar de especular como teria sido o funeral de minha me verdadeira. Imaginei-me a descobrir onde ela fora enterrada, indo visitar sua sepultura algum 
dia. O que diria? E quem ouviria? Bernie tinha razo? Nada restava de ns depois que morramos? Ou alguma coisa preciosa perdurava, algo que no compreendamos, 
no podamos compreender? Na volta para casa, Thelma finalmente falou:
- Pobre mame. Espero que ela no esteja sozinha.
Era disso que Thelma sentia mais medo, pensei, de ficar sozinha. Durante anos, os programas de televiso haviam lhe proporcionado as famlias e amigos que nunca 
tivera na vida real. Povoavam sua vida de distrao,
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impediam-na de pensar em sua prpria solido. Karl achara que minha adoo ajudaria, mas eu ainda no sentia que estava lhes dando muita coisa. Nem mesmo sentia 
que formvamos uma famlia. Pelo menos no como eu pensava que uma famlia devia ser.
Vov veio almoar em nossa casa, mas dormiu depois de algumas garfadas. Dava a impresso de que encolhera e murchara com seu sofrimento. Esperava em meu corao 
secreto que algum dia, de alguma forma, pudesse encontrar algum que me amasse tanto. Isso, pensei, era o verdadeiro antdoto para a solido, a melhor de todas as 
curas.
Dois dias depois, vov sofreu um derrame e foi levado para o hospital. No morreu, mas ficou to incapacitado que Karl teve de providenciar sua internao. Thelma 
no podia suportar a perspectiva de visit-lo em tal ambiente.
- Por que temos de envelhecer? - lamentou ela. - No  justo. Elena no parece um dia mais velha do que na poca em que comecei a assistir Sombras da eternidade. 
Deveramos todos viver dentro de um programa de televiso.
Karl sacudiu a cabea, desolado, e voltou a se concentrar em sua revista de economia. Eu retornei a meus deveres. Nossas vidas continuaram como se fssemos trs 
sombras  procura de um meio de nos tornarmos pessoas outra vez.
Visitamos o pai de Karl, mas no foi uma visita mais bem-sucedida do que a primeira. Ele se impacientou com o comportamento triste de Thelma e as crticas de Karl 
a seu estilo de vida, saiu de casa para se encontrar com os amigos. Poucos dias depois, Stuart, o irmo de Karl, veio de carro de Albany para me conhecer e apresentar 
seus psames a Thelma. Era mais alto e mais magro do que Karl, mas tinha olhos mais frios, um rosto
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mais definido, com um sorriso apenas fugaz. Fez-me perguntas sobre a escola, mas parecia constrangido quando eu respondia e o fitava. Notei que evitava meus olhos, 
no me fitava diretamente quando falava comigo. Depois que Stuart foi embora, Karl revelou que o irmo quase se tornara um monge. Acrescentou que era possvel que 
isso ainda viesse a ocorrer.
- As pessoas o deixam nervoso - confessou Karl. - Ele aprecia a solido.
- Como pode ento ser vendedor? - perguntei. - Os vendedores precisam conversar com as pessoas.
- Ele faz a maior parte do seu trabalho pelo telefone.
Fiquei desapontada. Esperava que meu tio fosse mais afvel e mais divertido. At imaginara que ia visit-lo em Albany. Lamentei o fato para Bernie e Ashley no dia 
seguinte.
Desde que decidramos participar de uma experincia, Ashley passava mais tempo comigo na escola... e por conseguinte com Bernie. Ela sentou conosco para almoar.
- Minha maior esperana era me tornar parte de uma famlia de verdade, ter parentes com festas e aniversrios, noivados e casamentos. Tudo, enfim. s vezes me sinto 
mais sozinha do que era no orfanato.
Ashley ficou muito triste por mim, os olhos cheios de angstia. Mas Bernie pensou por um momento, como se eu tivesse levantado um assunto da aula de cincias.
- Exageram a importncia da famlia - declarou ele, exibindo aquele ar confiante e at arrogante com que respondia s perguntas e fazia declaraes na sala de aula. 
-  um mito criado pelas companhias que fabricam cartes de cumprimentos. As pessoas vivem
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ocupadas demais consigo mesmas para pensarem na famlia.
- Isso  terrvel, mas no acontece com a minha famlia - protestou Ashley.
As sobrancelhas de Bernie quase se encostaram quando ele franziu os lbios.
- Seu pai est sempre viajando. Foi o que nos disse h poucos dias. Sua me tem pavor de envelhecer, como a minha. Temos de enfrentar a verdade, Ashley: no somos 
muito diferentes de Crystal. Ningum nos d maior ateno. De um modo geral, s servimos para atrapalhar. Na melhor das hipteses, somos um pequeno incmodo.
- No sou, no!
- Somos todos rfos - murmurou Bernie. - Estamos todos procurando uma coisa que no existe.
- No  verdade. No acredita nisso, no , Crystal?
- No sei. No quero acreditar, mas no sei.
Ashley estava profundamente transtornada, prestes a se levantar de um pulo e sair correndo. Foi nesse momento que Bernie se inclinou e sussurrou:
- No vamos nos preocupar com isso. Devemos iniciar nossa experincia. Estou pronto. Minha casa esta noite, por volta das sete e meia. Combinado?
Olhei para Ashley. O rosto dela mudou de repente, do sombrio para o animado. Os olhos se agitaram, nervosos, enquanto me fitavam e a Bernie.
- Combinado - respondi. - E voc, Ashley?
- Combinado - murmurou ela, num fio de voz. - Mas no sou uma rf.
Bernie soltou uma risada. Eu nunca o ouvira rir daquele jeito antes. Trouxe um sorriso para o meu rosto, fez Ashley sorrir tambm.
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Atravs do refeitrio, os outros estudantes, que sempre nos olhavam com desdm, demonstraram agora uma sbita e intensa curiosidade.
Mas a nossa prpria curiosidade era muito maior.
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9 - Em nome da cincia

- Isto  um grfico - comeou Bernie, mostrando uma folha quadriculada. - Cada um de ns tem o seu.
Ashley e eu sentvamos em cadeiras em seu quarto, enquanto ele nos dava as instrues de p. Ela comentou que se sentia na escola. Pedi-lhe que fosse paciente.
- Esta ser a primeira sesso - continuou Bernie, fechando e abrindo os olhos, irritado. - Faremos as mesmas coisas em cada sesso, classificando nossas reaes 
numa escala de um a dez, dez sendo a mais intensa. O objetivo  determinar como o beijo nos afeta, que beijos gostamos mais, e assim por diante. Entendido?
Ele falava e parecia com o sr. Friedman, nosso professor de cincias.
- No - respondeu Ashley, balanando a cabea.
- No faz o menor sentido. O que um grfico tem a ver com um beijo?
- Claro que o grfico nada tem a ver com o beijo.  apenas uma maneira de registrar nossas reaes de uma forma cientfica. - Ele suspirou em frustrao e olhou 
para mim. - Compreende agora por que eu nunca poderia ser um professor?
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Bernie balanou a cabea, respirou fundo e voltou ao seu programa.
- Vamos nos encontrar aqui todas as noites, durante a prxima semana.
- Ainda no sei o que estamos fazendo - murmurou Ashley.
- Em ltima anlise, vamos determinar que tipos de beijos mais apreciamos: secos, rpidos ou longos, babados. Vocs j pensaram em beijar um garoto antes, no  
mesmo? Pois finjam que sou o garoto por quem esto apaixonadas esta semana, depois me beijem como se fosse ele.
Ashley aspirou fundo e prendeu a respirao. Dava a impresso de que poderia explodir a qualquer instante. Os olhos ficaram esbugalhados. Olhou de mim para Bernie, 
sacudiu a cabea.
- No vou fazer isso.
Ela continuou a balanar a cabea.
- Vai nos dizer que nunca pensou em beijar um garoto? - A irritao de Bernie era crescente. -  natural pensar nisso.
Ashley no podia ficar mais vermelha, pensei, enquanto sentia que tambm corava. Toda aquela conversa sobre beijos me deixava to nervosa quanto Asnley.
-  muito importante que sejamos honestos uns com os outros - enfatizou Bernie. - Na cincia, a honestidade  essencial. No podemos esconder a verdade. No podemos 
fingir. Ningum aqui vai rir, nem gozar algum.  uma experincia sria e temos de nos comportar como adultos. Certo, Crystal?
- Certo.
No podia deixar de me surpreender pela maneira como Bernie fazia com que tudo parecesse objetivo e
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frio. No parecia nem um pouco sensual ou misterioso. Como eu sempre sonhara que seria.
- Por que  ele quem nos diz tudo o que temos de fazer? - protestou Ashley.
- Vocs me pediram para ajudar na experincia - respondeu Bernie. -  o que estou fazendo.
- No pedi nada. Crystal e eu estvamos curiosas sobre o beijo. Voc se intrometeu. No foi assim, Crystal?
- Foi, sim. Mas precisamos da ajuda de Bernie.
- Vai mesmo fazer isso, Crystal?
- Claro. - Olhei para Bernie, que parecia mais determinado e decidido do que nunca. - Estou muito interessada, e tenho certeza de que aprenderemos bastante sobre 
ns.
Ashley fixou seus olhos enormes em mim por um longo momento.
- E ento? - perguntou Bernie.
- Est bem - murmurou ela. - Se Crystal vai fazer, eu tentarei.
- timo.
Bernie foi at a porta do quarto e trancou-a. Fechou todas as cortinas das janelas. Os olhos de Ashley acompanhavam atentamente cada movimento dele. Bernie nos entregou 
os grficos.
- Os nmeros ao lado correspondem s atividades - explicou ele. - Ser mais fcil se apenas nos referirmos pelos nmeros. Em cima ficam as datas, comeando por hoje. 
Enquanto mantivermos a experincia numa base cientfica, no haver qualquer problema.
Ele foi at um armrio por baixo das prateleiras e abriu-o.
- O que  isso? - perguntou Ashley, antes que ele tivesse tempo de explicar.
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-  um medidor de presso arterial. Tambm registra a pulsao.
- Onde conseguiu isso? - indagou ela, como se fosse algum fruto proibido.
- Pode-se comprar em qualquer lugar, Ashley. Vendem em farmcias. No  nada demais. Quando estiverem excitadas - continuou Bernie, com sua voz de cientista -, a 
presso dever aumentar e a pulsao ir acelerar. Vamos verificar nossa presso e pulsao neste momento, antes de fazermos qualquer outra coisa. Assim saberemos 
o que devemos considerar normal e o que no devemos, certo? Quem  a primeira?
- Eu comeo - respondi.
Bernie tirou minha presso, depois a de Ashley.
- Voc est um pouco nervosa, Ashley - disse ele. - No esperava que sua presso fosse to alta.
Ele tirou a prpria presso, to baixa quanto a minha.
- Como  possvel que vocs dois estejam to calmos? - perguntou Ashley, desconfiada. - No se sente nervosa, Crystal?
- No.
Era verdade. Agora que estvamos prontos para comear, eu me sentia mais ansiosa do que nervosa em descobrir qual era a sensao de ser beijada. Ashley parecia ctica.
- E agora? - indagou ela.
Bernie sentou na nossa frente, cruzou as pernas, consultou suas anotaes.
- Agora devemos nos beijar. Quer ser a primeira, Ashley?
Ela deu um pulo da cadeira como um boneco de mola. Foi abrir a porta do quarto e saiu correndo, antes que Bernie pudesse lhe perguntar o que estava fazendo. Momentos 
depois, ouvimos a batida da porta da frente.
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Bernie e eu nos fitamos.
- Acho que ela ainda no estava preparada para isso - comentou ele, sorrindo.
- Tenho a impresso de que voc fez tudo isso s para se livrar de Ashley - murmurei, comeando a compreender por que ele se mostrara to objetivo e frio.
Os olhos de Bernie se encontraram com os meus, enquanto ele tentava esconder a verdade.
- Eu sabia que Ashley no estaria preparada. Por que perder tempo com ela?
- Por que voc queria fazer isso, Bernie? E lembre-se de que a honestidade  essencial na cincia.
Ele comeou a sorrir, mas logo se controlou, voltou a ficar srio.
- Tenho sentimentos diferentes por voc... diferentes do que j senti por outras garotas. Queria compreender por qu.
- Quer dizer que ainda  uma experincia?
- Claro que sim. O que mais poderia ser?
Tive vontade de dizer que podia ser amor; podia ser romance. Tive vontade de dizer que talvez no devssemos dissecar nossos sentimentos, que talvez isso os destrusse, 
mas no falei nada. No queria afast-lo. Sentia tambm um excitamento, que comeava por um pequeno tremor nas pernas, subia pela coluna, at fazer o corao disparar.
- Devemos continuar, Crystal?
Os olhos de Bernie transbordavam de expectativa e esperana. Uma ocasio, no orfanato, eu surpreendera uma garota chamada Marsha Benjamin num abrao ardente com 
um garoto muito mais velho. Ele se chamava Glen Fraser. Lembro que tinha medo dele, da maneira como me olhava. Era muito pequena para compreender o motivo naquele 
tempo. Quando vi Glen e Marsha se beijando, ele enfiando a mo por baixo da saia dela, forando-a
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a se virar para que pudesse se meter entre suas pernas, fiquei atordoada de medo e depois de espanto. Comecei a fugir, mas parei no instante seguinte, incapaz de 
fechar meus olhos curiosos. A verdade  que me sentia fascinada pelo rosto de Marsha, com a maneira pela qual ela deixava a cabea pender para trs, soltando pequenos 
gemidos. Suas mos me impressionaram ainda mais, primeiro tentando impedir que as coisas acontecessem, mas depois, como se dominada por um excitamento incontrolvel, 
largando as mos de Glen e segurando-o pela nuca, puxando com toda fora, como se sua vida dependesse daquilo.
Ele virou-se e me viu parada ali, observando-os. No se zangou. Sorriu friamente e disse:
- H espao para mais uma.
Tratei de fugir. Corri tanto e to depressa que se poderia pensar que era perseguida por algum monstro. Anos mais tarde, eu pensaria que o monstro estava dentro 
de mim. Queria domin-lo, deixar de ter medo. Pensei que no tornaria a acontecer at eu me sentir amada por algum que me atrasse. Especulei agora se Bernie no 
seria essa pessoa.
- Claro - respondi, depois de um longo momento. - Vamos continuar.
Bernie sorriu. Como se lesse meus pensamentos, acrescentou em seguida:
- Vamos comear devagar. Se qualquer dos dois se sentir constrangido, pararemos no mesmo instante. Pois isso s serviria para arruinar a experincia.
- Est certo.
Engoli em seco, para tentar dissolver o caroo de nervosismo em minha garganta. Bernie se adiantou e comeou a me beijar. Fechei os olhos e deixei a mente vaguear. 
Mas podia sentir o corao disparado. Fiquei preocupada, pensando que Bernie perceberia. Afastei-me.
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Bernie tirou as mos dos meus ombros. Levantou os olhos lentamente e me fitou.
- Como se sente, Crystal?
- Muito nervosa.
- Voc  a garota mais corajosa que j conheci. Pensei que no chegaria a esse ponto.
Tive a impresso de que havia um tnue tremor de nervosismo em sua voz.
- J disse que estou to interessada quanto voc - murmurei, tentando parecer mesmo corajosa.
Ele acenou com a cabea.
- O que vamos fazer em seguida?
- Por que no experimentamos um beijo de lngua? Voc me conta tudo o que est sentindo, e eu farei a mesma coisa. Combinado?
Inclinei a cabea em concordncia. Comecei a desejar ter sado com Ashley, mas era tarde demais agora para recuar. Alm do mais, sentia-me curiosa por Bernie e pela 
maneira como seu beijo me fizera sentir.
- Pronta?
- Pronta.
Olhei para o teto e depois para ele. Os olhos de Bernie me absorveram da cabea aos ps. Nunca antes um garoto me olhara da maneira como Bernie fazia agora. Deixava-me 
tonta.
- Meu corao est batendo forte. - Bernie comeou a andar ao meu redor. - Sinto-me nervoso, com um pouco de medo de fazer algo errado.
Era como algum enviando informaes do espao exterior... como se eu no estivesse no mesmo quarto, experimentando os mesmos sentimentos e emoes.
- Eu tambm.
Queria ser honesta sobre minhas reaes.,, pela validade da experincia,  claro.
- Eu tambm o qu?
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- Tudo o que voc disse.
Minha voz tremia. Fechei os olhos, enquanto ele andava ao meu redor. Podia sentir sua respirao no pescoo. Um momento depois, Bernie estava outra vez na minha 
frente, a poucos centmetros de distncia.
- Vou fechar os olhos, Crystal. Depois, experimentaremos o beijo de lngua. Certo?
Ele fechou os olhos e me beijou.
No tive certeza se gostei daquele tipo de beijo. Tive a sensao de que podia dizer o que Bernie jantara. J vira outros beijarem assim na escola. Pareciam gostar. 
Por isso, tentei gostar. Depois de um momento, meu corao passou a bater ainda mais forte, minhas mos ficaram suadas. Desta vez, no entanto, foi Bernie quem interrompeu 
o beijo.
- Puxa... - Ele balanou a cabea, como se tentasse dissipar o nevoeiro. - Agora compreendo por que todo o excitamento.
- Ahn... eu tambm.
Tentei evitar que o desapontamento transparecesse em minha voz. Nunca fui dessas garotas que se mostram sonhadoras quando falam sobre garotos e beijos, mas tambm 
nunca imaginei que seria objetiva e fria quando chegasse o momento.
- Eu gostaria de saber se Ashley vai contar tudo s amigas - comentou Bernie.
- Cuidarei para que ela no diga nada.
- Vo inventar histrias sobre ns de qualquer maneira, Crystal. Provavelmente j fizeram isso.
-  bem possvel.
Houve um longo momento de silncio. Para mim, era como se tivssemos fantasiado os beijos que partilhramos. S que o grfico em minhas mos, com meus comentrios, 
confirmavam que no fora um sonho.
-  melhor eu ir para casa agora, Bernie.
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- Vou acompanh-la at sua casa. - Ele sorriu da minha surpresa. - Acho que no vou conseguir ler, nem me concentrar em qualquer coisa, muito menos dormir por algum 
tempo.
Soltei uma risada para ocultar o que sentia, o mesmo excitamento ainda ressoando em meu corpo.
Bernie abriu a porta e samos. J estvamos quase na porta da frente quando ouvimos algum chamar da sala de estar.
- Minha me - murmurou Bernie.
Uma mulher elegante, vestida como se estivesse a caminho ou voltando de um baile importante, aproximou-se de ns, os brincos de diamantes balanando nas orelhas. 
Os cabelos bem penteados eram quase platinados, as mechas to perfeitas que at pensei que devia ser uma peruca. Era alta, com um corpo de ampulheta que parecia 
suspenso por fios e pinos. Quando ela saiu das sombras e chegou mais perto, constatei que seu rosto era to livre de rugas que mais parecia uma mscara. As tmporas 
eram esticadas, puxando os olhos, como se a pele tivesse encolhido. O nariz era pequeno, mas com as narinas um pouco grandes demais. Os lbios estufados faziam com 
que o sorriso parecesse doloroso. Era mais uma careta.
Os dedos da mo esquerda exibiam vrios anis. Dava a impresso de ser uma joalheria ambulante, com seu colar de diamantes, travessa nos cabelos e pulseiras. Pensei 
que ela devia ter tomado um banho de um perfume caro. O cheiro chegava dias na sua frente.
- Quem  essa, Bernard? - perguntou ela.
- Uma amiga.
- Por que no me apresenta? Nunca fez uma amizade antes, ainda mais com uma garota.
Ela me fitava enquanto falava.
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- Esta  Crystal - disse Bernie. - Crystal, minha me.
- Ol - murmurei.
- Crystal o qu? - perguntou ela, sem responder ao cumprimento.
- Crystal Morris - informou Bernie. - Ela estava voltando para casa.
- Morris? Filha de que Morris? De Charne Morris, da agncia de propaganda?
- No - disse Bernie. - Vou acompanh-la at sua casa.
Ele quase que correu para a porta da frente e abriu-a.
- Foi um prazer conhec-la - disse a me, enquanto eu partia atrs de Bernie. - J era tempo de Bernie trazer algum para casa.
A impresso era de que seu rosto poderia explodir com uma mudana de expresso abrupta demais. Olhei para trs uma vez, depois me apressei para alcanar Bernie, 
que j sara.
Ele fechou a porta depois que sa tambm, e quase correu pelo caminho.
- Talvez no devssemos sair correndo desse jeito, Bernie - comentei, ao alcan-lo.
Ele passou a andar ainda mais depressa.
- Ela s quer que eu tenha namoradas, escute rock e me vista como um artista adolescente do cinema ou televiso. Olhe s para ela. - Bernie parou e virou-se para 
a casa. - Se aquela fosse sua me, gostaria que algum a conhecesse? Ela s gosta de me embaraar.
Bernie recomeou a andar.
- J era tempo de voc trazer algum para casa - arremedou ele. - Especialmente uma garota.
- Provavelmente ela est apenas preocupada com voc.
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- No est, no. Minha me s se preocupa com ela prpria, o que os outros vo dizer se eu no parecer um jovem supostamente normal. No vamos mais falar sobre isso. 
S me deixa irritado.
Andamos em silncio at minha casa. Era uma noite nublada, o ar se tornara um pouco frio. Nossa respirao aparecia em pequenas nuvens de vapor. Nenhum dos dois 
usava agasalho.
- Fique com isto - disse Bernie, na porta da minha casa.
Ele me estendeu os grficos. Eu nem notara que os trouxera.
- Talvez seja melhor deixar em seu quarto. Bernie sacudiu a cabea.
- s vezes ela entra em meu quarto e revista tudo,  procura de alguma coisa estranha, enquanto estou na escola. Uma vez deixei uma r dissecada fedendo a for-mol 
na mesa, de propsito. Ela passou algum tempo sem entrar, mas ainda me espiona de vez em quando. No quero que encontre estes papis. Ela nunca entenderia.
- Est bem.
Peguei os grficos. Tinha certeza de que Karl e Thelma tambm no entenderiam, mas no queria encerrar a experincia.
- Boa-noite. - Bernie hesitou. - Gostei muito da experincia. E aguardo ansioso pela continuao amanh.
Ele virou-se para ir embora, mas depois voltou e me deu um beijo rpido na face. Fiquei parada ali, com a mo no rosto, observando-o desaparecer pela calada. Depois 
entrei, a cabea em turbilho, com uma sucesso vertiginosa de emoes que me deixavam tonta. Karl ainda estava acordado, mas Thelma j fora para a cama.
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- Ela sentia-se muito cansada esta noite. Adormecia na poltrona a todo instante. Por isso, levei-a para a cama. Como voc est?
- Muito bem.
- Isso  timo. Creio que o pior j passou. Agora voltaremos a uma vida normal.
O que  uma vida normal? Tive vontade de fazer essa pergunta. Era uma vida dominada pela solido e medo? Era uma vida em que ignorvamos uns aos outros? Thelma no 
se mostrava muito diferente do que era no dia em que eu chegara. Em vez de voltar ao mundo real por minha causa, ela continuava a se empenhar para que eu entrasse 
tambm em seu mundo de faz-de-conta. Karl permanecia firme e leal  sua agenda organizada. Eu conhecera inmeros jovens da minha idade, mas muitos pareciam ainda 
mais perturbados do que eu era... e sempre haviam tido uma famlia!
- Vou dormir tambm - murmurei. - Boa-noite.
- Boa-noite. At amanh.
Os olhos de Karl ainda seguiam as palavras na pgina da revista em sua mo. Fui para o meu quarto e me aprontei para deitar. Depois de me meter sob as cobertas, 
recostei-me no travesseiro e peguei os grficos. Sabia o que escrevera no meu, mas no tinha a menor idia do que havia no grfico de Bernie.
Suas notas eram to altas quanto as minhas, mas o que ele escreveu no fundo atraiu meu interesse.
Nunca antes me senti atrado por algum com tanta intensidade. Eu me pergunto se isso significa que Crystal  especial ou se no passa de uma reao natural ao beijar 
uma garota bonita.
A maioria das outras pessoas, pensei, pensaria que era muito estranho o que ele escrevera, mas eu sabia que aquela era a nica maneira pela qual Bernie podia dizer 
"Eu amo voc".
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Por enquanto, teria de me contentar com isso. Tinha grandes esperanas para o dia seguinte. E naquela noite, para variar, tive a maior facilidade para fechar os 
olhos, sonhar e adormecer.
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10 - O desejo do corao

Ashley parecia assustada quando a confrontei na escola no dia seguinte. Bernie ficara com medo de que ela espalhasse histrias a nosso respeito. Em vez disso, porm, 
Ashley estava com medo de que espalhssemos histrias a seu respeito.
- Voc ficou?
Ela fez a pergunta num sussurro, quando nos encontramos na frente de nossos armrios, no corredor. Olhou para os dois lados, a fim de se certificar de que ningum 
podia nos ouvir.
- Fiquei.
- E fez a experincia?
- Claro.
Fechei a porta do meu armrio e comecei a seguir para minha sala. Ashley foi atrs de mim, como um cachorrinho puxado por uma correia invisvel.
- O que aconteceu?
Parei e virei-me para fit-la.
- Se quer saber tanto, por que no ficou?
- No pude ficar.
Seu rosto dava a impresso de que poderia desatar em soluos histricos a qualquer momento.
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- Contou a algum? A Helga, por exemplo? Ashley sacudiu a cabea com tanto vigor que pensei que seus olhos iam chocalhar.
- Ainda bem.
Continuei a seguir para a sala. Ela permaneceu ao meu lado, passo a passo, at avistar Bernie. Baixou ento a cabea e foi para o seu lugar.
Bernie fitou-a por um momento e depois olhou para mim, com uma expresso inquisitiva. Indiquei que estava tudo bem. Ele relaxou. No me falou at sairmos outra vez 
para o corredor. Quando ele se aproximou, Ashley tratou de se afastar.
- No posso encontr-la no almoo hoje, Crystal. Prometi ajudar o sr. Friedman a instalar os equipamentos.
- No tem problema.
- Est tudo bem?
- Claro.
- Posso esper-la em minha casa  mesma hora esta noite?
Hesitei por um instante. Bernie procurou ansioso pela resposta em meus olhos.
- Continuaremos a pesquisa de acordo com o grfico - acrescentou ele.
- Estarei l.
E seguimos nossos caminhos. Na hora do almoo, Ashley quase correu ao meu encontro.
- Vai me contar o que aconteceu? - perguntou ela, assim que ps a bandeja na mesa e sentou na cadeira ao meu lado.
- S nos beijamos duas vezes - informei, a voz to fria e objetiva quanto era possvel.
- S duas? Por que apenas duas?
-  difcil explicar para algum que no estava
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presente, mas foi tudo muito cientfico. No aconteceu nada demais.
Ela ficou desapontada.
- Gostou de beij-lo?
- No. Isto , sim. Foi... Ora, no posso falar a respeito desse jeito. Faz com que parea uma coisa obscena.
Ashley acenou com a cabea como se compreendesse.
- No estou tentando zombar de voc, Crystal.  diferente para voc e Bernie. - O tom da voz era de tristeza. - Os dois so muito inteligentes. Tive a sensao de 
que meu lugar no era ali, com vocs, e me apavorei. Se algum dia quiser me contar qualquer coisa, prometo que ouvirei tudo e no direi a ningum.
Compreendi que ela no podia participar de nossas experincias, mas queria se sentir especial, como se estivesse por dentro, autorizada a conhecer os maiores segredos. 
Ashley ainda  uma menina, pensei. Para ela, ainda  um jogo, como "voc mostra o seu que eu mostro a minha". Mas se eu a repelisse, ela poderia se virar contra 
ns e comear a contar histrias.
- Est bem, Ashley. Contarei tudo assim que acontecer alguma coisa... assim que houver concluses cientficas concretas.
Ela sorriu.
- Pode ir  minha casa na noite de sexta-feira e jantar comigo e com minha me? Meu pai ainda est viajando.
Pela maneira como Ashley falava sobre o pai, eu chegara  concluso de que ele passava tanto tempo viajando quanto ficava em casa.
- Talvez voc possa me ajudar nos problemas de matemtica para a prova na semana que vem - acrescentou ela.
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- Pedirei a meus pais.
Ashley ficou radiante. Eu sabia que ela no era muito popular. Raramente era convidada para qualquer coisa. As outras garotas tratavam-na como se fosse socialmente 
inferior, uma intrusa, por causa do seu tamanho e timidez. Apesar do que ocorrera na casa de Bernie, eu me tornava rapidamente sua melhor amiga. Ela tinha a maior 
considerao por mim. Gostava do fato de que as outras garotas podiam no se mostrar cordiais, mas tambm no queriam me desafiar. Talvez minha carapaa exterior 
tivesse sido endurecida por anos de vida em orfanatos. Claro que eu no tinha medo de garotas como Helga, que costumavam apunhalar pelas costas, dizendo fofocas 
no banheiro, mas se calando quando voc aparecia. Havia muitas idias erradas sobre rfs. Se queriam acreditar que eu era capaz de arrancar seus olhos, o problema 
era delas. H muito tempo eu aprendera que se no podia fazer com que outra garota ou rapaz gostasse de mim por quem eu era, ento era melhor que me temessem. Pelo 
menos assim ficava segura.
 medida que as aulas se aproximavam do fim, senti que o excitamento se acumulava dentro de mim, como uma distante trovoada no horizonte. De vez em quando um pequeno 
choque eltrico me atingia o corao. O estmago se agitava, no parava por um instante sequer. At que ponto iramos no grfico de Bernie? Quando olhei para as 
folhas, sozinha em meu quarto, pareciam fogo em minhas mos. O calor subiu pelos braos, envolveu o corao. Ao me contemplar no espelho, verifiquei como tinha as 
faces coradas, como os olhos faiscavam. Karl compreenderia tudo s de me olhar? E Thelma, cuja dose diria de paixo atravs da televiso seria capaz de sufocar 
a prpria Vnus?
- Est se sentindo bem esta noite, Crystal? - perguntou Karl ao jantar.
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Thelma levantou os olhos, ansiosa.
- Estou, sim. Apenas me sinto um pouco preocupada com a primeira prova de matemtica na escola.
- Ah... - Thelma soltou uma risada. - Provavelmente voc vai tirar dez. No  mesmo, Karl?
- Ela vai se sair bem. Ficar nervosa com a prova no tem problema, desde que no interfira com seu desempenho. Os alunos que no se preocupam com as provas  que 
se do mal. Voc  uma mocinha bastante motivada. E sentimos o maior orgulho por isso, no  mesmo, Thelma?
- Como? Ah, sim... claro, querida. Os outros pais tero inveja de ns. - Thelma parecia muito feliz. - Suas notas na escola foram uma das primeiras consideraes 
de Karl. No  mesmo, Karl?
-  verdade.
Olhei para os dois e pensei um pouco. Se eu tirasse mais C em vez de A, eles no teriam me adotado. De certa forma, no parecia certo basear tanta coisa em resultados 
de provas, ainda mais quando o objetivo era fazer de algum sua filha. Se minhas notas baixassem, eles me mandariam de volta para o orfanato?
- Ashley Raymond perguntou se eu no queria jantar com ela e sua me na sexta-feira. Posso ir?
- Para ser franco, seria timo - respondeu Karl. - Creio que ns no voltaremos a tempo para o jantar. Eu ia pedir a Thelma que preparasse um prato que voc pudesse 
esquentar.
- De volta a tempo? Para onde vamos, Karl? Thelma parecia confusa.
- No se lembra, Thelma? Temos uma reunio com os mdicos e o administrador da clnica para tratar da situao de seu pai. Ele ter de ser transferido para outra 
instituio, onde receber mais ateno durante as vinte e quatro horas do dia.
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- Detesto fazer essas coisas - murmurou ela. - No podemos resolver tudo pelo telefone?
- No, querida. H documentos para assinar. Mas no vai demorar muito. - Ele sorriu para mim. - Thelma no gosta de lembrar coisas tristes. Com o tempo que leva 
para ir  clnica e voltar, eu no queria que voc ficasse nos esperando para jantar, Crystal.
- Ela no poderia ir conosco, Karl?
- Acabou de ouvi-la dizer que Ashley a convidou para jantar, Thelma. Deixe-a conhecer gente de sua idade. Quer que ela tenha amigos, no ?
- Claro que sim.
Desde a morte da me que Thelma parecia ainda mais retrada e com medo da vida real. Pensei que ela no hesitaria se pudesse entrar por dentro do aparelho de TV 
ou em um livro.
- Ento est tudo resolvido - disse Karl.
- Sabe o que vai passar esta noite, Crystal? Teatro de romance, com uma nova histria.
- Vou estudar para a minha prova de matemtica com Bernie Felder.
No era uma mentira total. Eu esperava estudar um pouco no encontro com Bernie.
- Neste caso, posso gravar para voc assistir comigo no fim de semana, est bem?
- Seria timo.
Thelma ficou satisfeita. Karl fitou-me com uma expresso perturbada. Depois de ajudar Thelma com os pratos, fui para o meu quarto, peguei os livros e meti os grficos 
dentro do caderno. Quando voltei, Thelma j estava absorvida num programa de televiso. Karl sentava-se em sua poltrona, lendo o Wall Street Journal.
- No volte muito tarde - disse ele, quando me encaminhei para a porta da frente.
- No voltarei.
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Respirei fundo e sa. Era uma noite clara. As estrelas pareciam maiores e mais brilhantes. Havia silncio na rua, mas as sombras eram mais profundas e mais longas. 
Meu corao enchia os ouvidos com batidas to fortes que eu nem ouvia os carros passando. Tinha a sensao de que flutuava quando cheguei na casa de Bernie. O dedo 
tremia ao apertar o boto da campainha. Ouvi o barulho l dentro. Bernie abriu a porta momentos depois.
- Oi - disse ele.
- Oi.
Entrei, meio esperando deparar tambm com sua me. Mas, como sempre, no havia qualquer barulho na casa.
- No h ningum em casa. - Bernie me ofereceu um sorriso de conspirador. - No se preocupe. No seremos interrompidos.
- Pensei que poderamos tambm estudar um pouco para a prova de matemtica.
- Claro. Mas posso garantir que ser fcil. As primeiras provas do sr. Albert sempre so fceis. Ele gosta de proporcionar a todos a sensao de que vo se sair 
sempre bem. Uma falsa esperana.
Assim que entramos em seu quarto, ele fechou a porta e virou-se para mim.
- Trouxe os grficos de volta?
- Trouxe.
Tirei-os do caderno e entreguei-os. Bernie estudou-os como se tivesse esquecido o que estava escrito ali.
- timo. - Ele me fitou. - Est pronta? Hesitei por um instante. Bernie se mostrou preocupado.
- Ainda quer continuar a experincia, no ?
- Claro que quero.
Minha vontade era contar que pensara demais em
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nossos beijos, mas tinha medo de que ele no quisesse continuar se eu no encarasse a experincia com a devida seriedade.
No podia deixar de acalentar a esperana de que tambm para Bernie a experincia era mais do que apenas um teste cientfico.
O beijo comeou suave, como na primeira vez, mas logo ele se tornou mais insistente. Forou-me a beij-lo mais profundamente, por mais tempo. Esse tipo de beijo 
me deixava nervosa, mas no da maneira agradvel e especial que sentira antes. Enquanto Bernie comprimia os lbios e depois o corpo contra mim, no pude deixar de 
sentir que ele queria fazer mais do que apenas beijar.
- Pare, Bernie. Precisamos fazer pausas para anotar os resultados.
Eu esperava parecer calma; dentro do peito, sentia que o corao podia explodir de bater to depressa.
- Ora, Crystal, no vamos parar. Agora  que comeava a ficar interessante.
Ele se adiantou e estendeu as mos para meus ombros.
- No, Bernie. No quero continuar assim.
Virei-me e fui at a escrivaninha. Peguei meu grfico e comecei a escrever os resultados. Mas minhas mos tremiam tanto que pude apenas rabiscar.
- No entendo, Crystal. Fiz alguma coisa errada? No quer continuar a experincia?
Bernie estava magoado. Embora soubesse que tnhamos de parar com aquilo, no queria que Bernie pensasse que eu no gostava dele.
- No, Bernie, o problema no  esse. Acontece apenas que... comea a parecer mais do que uma experincia... e no me sinto preparada para isso.
Torcia para que ele apreciasse minha honestidade.
- Como quiser, Crystal. Acho que voc  como
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Ashley... assustada demais para fazer qualquer coisa adulta, at mesmo em nome da cincia!
Ele se encaminhou para a porta do quarto, furioso.
- No posso acreditar que voc esteja agindo como se fosse uma coisa... uma coisa errada ou obscena. Obviamente  mais imatura do que eu pensava. Acho melhor voc 
ir embora agora, Crystal. No precisa se dar ao trabalho de voltar.
Enquanto saa correndo da casa de Bernie, as lgrimas escorrendo pelo rosto, no pude deixar de sentir que era errado encerrar nossa experincia. Queria voltar. 
Bernie era meu amigo. No tivera a inteno de faz-lo sentir que fazamos algo obsceno. Na verdade, eu comeava a pensar que havia uma ligao especial entre ns, 
que significava alguma coisa o que fazamos. E tivera a esperana de que Bernie tambm pensasse assim. Agora, pensei, nunca descobriria o que Bernie sentia por mim. 
Se pensava em mim quando nos beijvamos... ou se pensava apenas em seus grficos e projees.
Talvez Thelma estivesse certa... era muito mais fcil envolver-se na vida de outras pessoas na TV do que na vida real.
Ao chegar em casa, parei e sentei numa cadeira no gramado, a fim de recuperar o flego. No queria entrar com a aparncia que devia ter naquele momento. Alm do 
mais, Karl e Thelma haveriam de querer saber por que eu voltara para casa to cedo. Antes de Bernie, pensei, nenhum garoto jamais sequer tentara me beijar.
O ar frio da noite me provocou calafrios. Passei os braos em torno do corpo, balancei para a frente e para trs. No conseguia me livrar dos sentimentos angustiantes.
Era muito difcil encontrar algum para am-la de um jeito que a deixasse feliz, pensei, mas queramos e precisvamos desesperadamente de amor. De repente,
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Thelma j no parecia to tola e perturbada como eu julgara antes. S queria ser amada tanto quanto os personagens de suas novelas.
Karl e Thelma me fitaram quando entrei.
- J de volta to cedo? - murmurou Karl.
- No havia muito para estudar. - Olhei para o aparelho de televiso. - Por isso, decidi voltar para casa e assistir ao programa com mame.
-  mesmo? - gritou ela.
Karl me fitou desconfiado, os olhos contrados.
- Est tudo bem? - perguntou ele.
- Claro.
- Por que no estaria tudo bem? - indagou Thelma. - Ela veio assistir ao programa comigo. Isso  tudo.
Ela estava exultante. Os olhos faiscavam de felicidade.
- Tem razo, mame.
- Chegou bem a tempo - declarou Thelma, arrumando um lugar para mim a seu lado.
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11 - Sonhos destrudos

Bernie esperava junto do meu armrio de manh. Fitei-o de passagem e fui abrir minha tranca de combinao.
- Desculpe, Crystal. Acho que avanamos depressa demais. No podemos tentar de novo?
- No. Acho que estvamos certos ontem. Vamos esperar para ver o que acontece naturalmente.
Eu esperava parecer mais segura do que me sentia.
- Voc  a nica pessoa com quem eu faria aquilo - murmurou ele, desolado, antes de virar e se afastar.
Ashley observava do outro lado do corredor. Veio ao meu encontro em passos rpidos.
- Meus pais disseram que posso jantar em sua casa na sexta-feira, Ashley. - Os olhos dela brilharam como luzes de rvore de Natal. - No me faa outras perguntas. 
Absolutamente nenhuma.
Ela me fitou atentamente e balanou a cabea em concordncia. Bernie no apareceu no refeitrio na hora do almoo. No olhou para mim nas aulas que tivemos juntos. 
Tratei de me concentrar nos estudos, removendo da mente todos os outros pensamentos. Ashley ficou to assustada com meu comportamento que andou e sentou em silncio 
ao meu lado durante o
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dia inteiro. S decidiu falar depois da campainha final, quando seguamos para pegar o nibus.
- Direi  minha me que voc vai jantar conosco. Depois de comer e estudar um pouco para a prova de matemtica, talvez possamos ouvir msica. Comprei dois CDs novos 
esta semana. Gosta de Timmy e dos Grasshoppers?
- Nunca ouvi falar deles. - Virei-me para fit-la. - Quase nunca escuto rock.
- Ahn...
Soltei um suspiro profundo.
- Mas talvez seja melhor eu me atualizar. Vamos ouvir seus CDs.
- Sensacional!
Ela entrou no nibus na minha frente. Bernie j sentara l atrs, em seu lugar habitual. Manteve os olhos em seu livro. Sentei no meio, ao lado de Ashley.
- Vocs duas no esto se tornando muito chegadas? - comentou Helga, zombeteira, ao passar por ns.
- Est com inveja? - perguntei, com um sorriso frio.
- Inveja de qu?
Ela olhou para as amigas, em busca do aplauso que esperava divisar em seus olhos.
- Da inteligncia, charme, esprito... em suma, tudo que falta em voc.
Ela abriu e fechou a boca, enquanto procurava por alguma resposta apropriada. Mas os estudantes por trs no corredor do nibus gritaram para que ela sasse da frente. 
Assim, Helga limitou-se a dar de ombros e jogar os cabelos para trs, antes de se afastar.
- Voc no tem medo de ningum, no ? - perguntou Ashley, com uma admirao evidente.
Pensei um pouco.
- Tenho, sim.
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- De quem?
- De mim mesma.
Claro, eu sabia que ela no compreenderia. Anos se passariam antes que pudesse compreender.
Os dois dias seguintes foram muito parecidos. Concentrei a maior parte da minha energia e ateno nos estudos, no primeiro trabalho do semestre e nas provas iniciais. 
De noite, tirava algum tempo para assistir televiso com Thelma. Ns duas comeamos a conversar sobre outras coisas. Aprendi mais e mais sobre a infncia de Thelma, 
seus sonhos e desapontamentos. Karl se mostrou bastante satisfeito. Apresentou a idia de passarmos um fim de semana em Montreal, no Canad, dentro de duas semanas. 
O que deixou Thelma ainda mais feliz. Achei que talvez pudssemos formar uma famlia de verdade, no final das contas.
Na sexta-feira, depois das aulas, voltei para casa, troquei de roupa, fiz alguns deveres de que queria me livrar logo, e depois fui para a casa de Ashley. Sua me 
demonstrou a maior felicidade ao me ver. Senti-me embaraada com tanta ateno. Ningum, nem mesmo Thelma, era to atenciosa, me adulava tanto. Sua preocupao era 
intensa, de que eu no gostasse do que fizera para o jantar, do que tinha para beber, da sobremesa.
- Com que freqncia seu pai costuma viajar assim? - perguntei a Ashley, quando ficamos a ss em seu quarto, depois do jantar.
A cadeira vazia  cabeceira da mesa se destacava. Proporcionava-me uma estranha sensao, como se um fantasma sentasse ali. Por hbito ou apenas para manter a aparncia 
da mesa equilibrada, a me de Ashley tambm pusera prato e talheres na cabeceira.
- Quase de duas em duas semanas. Os dois brigam muito por isso. Na semana passada minha me acusou-o de ter outra famlia.
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- Seu pai tem de trabalhar desse jeito?
- Ele diz que sim - respondeu Ashley, com a maior tristeza. - Sinto pena de mame. Passa tempo demais sozinha.
Balancei a cabea em compaixo. Muitos dos colegas que conhecera na escola sentiam-se to solitrios quanto eu fora, apesar de viverem com suas famlias. Sob vrios 
aspectos, seus lares e vidas estavam arruinados, mantidos juntos apenas pela cola mais fraca. Embora nunca tivessem vivido em orfanatos como eu, muitas vezes exibiam 
os rostos de rfos, rostos que revelavam sua solido, anseio por mais afeio e amor, os olhos esquadrinhando os amigos, para descobrir se algum tinha mais.
Peguei o livro de matemtica de Ashley e ajudei-a a compreender nossos ltimos deveres.
- Voc deveria ser professora, Crystal.  melhor do que o sr. Albert.
- De jeito nenhum.
Soltei uma risada. J amos comear a ouvir os CDs quando o telefone tocou. Ashley fez uma pausa. Percebi que ela esperava que fosse o pai, ligando do lugar em que 
se encontrava. Praticamente prendia a respirao. Foi por isso que ouvimos sua me gritar:
- Oh, no! Quando?
Os olhos de Ashley foram dominados pelo medo no mesmo instante. Momentos depois, sua me apareceu na porta do quarto. Olhei para Ashley. Ela estava quase em lgrimas, 
prevendo o pior. Mas a sra. Raymond olhou para mim e disse:
- Crystal, houve um terrvel acidente. Sabe o telefone de seu tio Stuart em Albany?
- Tenho certeza que est no Rolodex do meu pai. Vou procurar.
Sa correndo do quarto antes que ela pudesse dizer
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qualquer outra coisa. Meu corao batia to forte que as pernas pareciam de borracha. Quase tropecei ao passar pela porta da frente. L fora, comecei a correr. As 
lgrimas j turvavam minha viso. Que tipo de acidente? O que aquilo significava?
Entrei em casa e atravessei o corredor at o escritrio de Karl. Depois de encontrar o telefone de Stuart, respirei fundo, incapaz de engolir um inchao na garganta, 
que ameaava me sufocar.
Mesmo assim, voltei correndo para a casa de Ashley. Entreguei o papel com o telefone para sua me, como se fosse uma corredora de revezamento passando o basto. 
Ela pegou-o devagar, os olhos fixados em mim, cheios de lgrimas. Disse que nos explicaria depois que falasse com tio Stuart. Pediu-nos para esperar na sala de estar. 
Deixei o quarto com Ashley, mas me demorei no corredor. No podia esperar por mais tempo para descobrir o que acontecera.
Ashley parecia assustada, mas parou perto de mim no corredor. Trocamos um olhar, para em seguida nos virarmos, quando a sra. Raymond comeou a falar.
- Stuart, aqui  Vera Raymond, amiga de Thelma. Claro, claro, estou bem. Stuart, um amigo do meu marido, na polcia daqui, acaba de me telefonar. Houve um terrvel 
acidente. Um acidente de carro. Karl e Thelma... os dois morreram, Stuart. Sinto muito.
Ashley reprimiu um grito, com o punho cerrado na boca. Balancei a cabea para ela.
No, isso no  verdade, pensei. Karl  um excelente motorista. O motorista mais cuidadoso do mundo. Eles so jovens demais para morrer.
- Aconteceu hoje, h poucas horas. Um motorista bbado numa pickup atravessou a pista para o outro lado da estrada. Eles no tiveram a menor chance. Sinto muito.
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Uma pickup? Um motorista bbado? Por um momento, foi como escutar a conversa sobre a vida de outra pessoa. Senti que assistia e ouvia uma das novelas de Thelma. 
Era tudo inveno, mera fantasia. Thelma vai ficar furiosa com isso, pensei. No momento em que ela se afeioa aos personagens, eles so retirados da novela. Sacudi 
a cabea.
Ashley me fitava de uma maneira estranha. Parecia congelada no tempo, uma esttua de cera representando o medo.
- Isso mesmo - disse a sra. Raymond. - Ela est conosco. O que deseja que eu faa?
Houve um momento de silncio. Minha mente disparou, pensando no que Stuart poderia estar dizendo. O que me aconteceria? Seria enviada de volta ao orfanato?
- Eu compreendo, Stuart. Mas at l, o que voc quer que eu faa?  mesmo? Est certo. Descobrirei e cuidarei de tudo. Sinto muito, Stuart. Foi um choque terrvel. 
At eu tenho dificuldade para absorver. Sinto muito.
Ela desligou e saiu para o corredor. Por sua expresso, percebi que ficou surpresa ao me ver parada ali, mas tambm aliviada porque no teria mais de explicar a 
tragdia de novo.
- Sinto muito, Crystal.  horrvel. Sinto muito, querida.
- Tenho de ir para casa agora. Prometi  minha me que no voltaria muito tarde. Eles preferem que eu esteja presente ao voltarem.
- Espere um pouco, querida...
- Obrigada pelo jantar, sra. Raymond. Obrigada, Ashley. Falo com voc amanh. Obrigada.
Corri para a porta.
- Crystal! - gritou a sra. Raymond.
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Mas eu j passara pela porta, correndo tanto que ofegava quando cheguei em casa. Gritei ao entrar:
- J cheguei!
O silncio me saudou. Era como estar na casa de Bernie. Fiquei parada ali, respirando com dificuldade, prestando ateno a todos os sons.
 igual a uma novela, repeti para mim mesma, vrias vezes. A me de Ashley  como Thelma. Tambm adora novelas. Aposto que sei qual . Soltei uma risada. Claro, 
aposto que sei.
Quando a campainha da porta tocou, eu estava sentada na poltrona de Thelma, assistindo televiso. Ignorei-a. A campainha tocou outras vezes. Algum comeou a bater 
na porta. Uma voz ameaou arromb-la. Houve mais batidas. No intervalo para os comerciais, levantei-me e fui abrir a porta.
Havia um homem e uma mulher parados ali. O homem vestia terno e gravata. Usava culos e carregava uma pequena pasta. A mulher era baixa e larga nos quadris. Tinha 
cabelos castanhos-escuros, bem curtos. Pude sentir o cheiro de agncia de assistncia ao menor. Tinham essa aparncia.
- Ol, Crystal. Sou o sr. Kolton, e esta  a sra. Thacker. Estamos aqui para ajud-la.
- No posso ir a lugar nenhum - declarei. - Meu programa ainda no terminou.
- Como?
- Estou assistindo uma novela. Thelma sempre assiste e vai querer saber o que aconteceu quando voltar. Mas esqueceu de ligar o gravador.
Os dois trocaram um olhar. A mulher sacudiu a cabea.
- Tudo vai acabar bem - murmurou o homem, com um sorriso profissional.
Para mim, parecia que ambos usavam mscaras
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familiares, mscaras que eu vira durante toda a minha vida.
- Ainda no sei - respondi. - Temos de esperar pelo final.
Deixei-os parados na porta e voltei para a frente da televiso. Eles entraram. A mulher sentou ao meu lado, enquanto o homem dava alguns telefonemas. Poucas horas 
depois, eu sentava no banco traseiro do carro deles, voltando para o covil do monstro, o sistema, o nico verdadeiro pai e me que eu j conhecera.
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Eplogo

-Vai ser muito melhor do que o orfanato, Crystal - prometeu a sra. Thacker, ao nos aproximarmos de Lakewood House.
 nossa frente havia uma casa enorme, de dois andares, com uma varanda em torno do primeiro andar. Havia bordos e salgueiros na frente, com muito gramado verde. 
Ao nos aproximarmos, vi que tinha tambm um lago atrs.
- Louise Tooey  provavelmente a melhor me de adoo provisria que temos. Trata todos os jovens e crianas sob seus cuidados como se fossem seus prprios filhos. 
 o que todos dizem.
- Isto aqui era antes uma pousada - acrescentou o sr. Kolton. - E muito popular, diga-se de passagem. Tem um refeitrio grande, um lindo saguo, campos para jogos.
- E um lindo jardim - ressaltou a sra. Thacker.
- Talvez queira se mudar para c junto comigo - comentei, sarcstica.
Ela me lanou um olhar. Depois ofereceu aquele seu sorriso aucarado que eu tanto detestava, antes de voltar a olhar pela janela.
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- H outras moas da sua idade aqui e a escola em que vai estudar  uma das melhores - assegurou o sr. Kolton.
- Como sabe disso?
Ele tambm lanou um olhar rpido, mas no respondeu.
- Crystal se sai bem em qualquer escola - comentou a sra. Thacker, arrancando uma risada do sr. Kolton. - Provavelmente vai ensinar s outras crianas daqui. No 
 mesmo, Crystal?
No respondi. Olhei pela janela, mas sem ver minha nova casa. Meus pensamentos voltaram ao funeral a que acabara de comparecer. Ironicamente, Karl acertara em cheio 
ao planejar antes sua morte e a de Thelma. A agncia decidira que eu podia comparecer, apesar de Karl e Thelma no terem concludo o processo de adoo. Todos os 
parentes me apresentaram suas condolncias, para depois, com expresses culpadas, explicarem que no tinham lugar para mim. Os irmos de Karl no podiam me receber. 
O pai dele e o pai de Thelma no tinham condies de ser meus tutores. Thelma no tinha parentes que estivessem interessados.
Ashley e sua me foram ao funeral, assim como tio Stuart e algumas pessoas do escritrio de Karl. Antes da cerimnia terminar, olhei para trs e avistei Bernie parado 
perto de uma rvore, observando. Depois das oraes finais, segui para o carro com o sr. Kolton e a sra. Thacker. Ashley veio me abraar e prometeu que me escreveria, 
se eu lhe escrevesse. Acenei com a cabea. Detestava promessas. Eram como aqueles bales que eu vira levados pelo vento. Tinham uma forma at o ar escapar, e depois 
todos os esqueciam.
Bernie adiantou-se e eu parei.
- Pensei que voc no aprovava funerais - comentei.
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- No aprovo, mas queria estar aqui por voc.
- O que isso representa? A stima etapa? Ele baixou os olhos.
- Desculpe. - Bernie tornou a me fitar e acrescentei: - Ambos estvamos errados. Deveramos apenas dizer o que sentamos, em vez de usar disfarces.
Bernie inclinou a cabea em concordncia.
- Acho que aprendemos uma coisa importante, Crystal.
- Tambm acho.
Entrei no carro. Ele continuou parado ali. Acenou, enquanto nos afastvamos.
Eu ainda podia v-lo parado. Pisquei e despertei para o presente quando o sr. Kolton parou o carro na frente da casa. Eles pegaram minhas coisas e entramos. Um garoto 
e uma menina, que no deviam ter mais que dez ou onze anos, sentavam-se a uma mesa grande, absorvidos em algum jogo de tabuleiro. Levantaram os olhos, curiosos. 
Uma porta se abriu no fundo do saguo. Uma mulher alta, com cabelos castanhos at a altura dos ombros, balanando em torno do rosto, adiantou-se apressada para nos 
cumprimentar. Embora tivesse um rosto bonito e enormes olhos azuis, as rugas na testa e nos cantos dos olhos eram bastante profundas para me levarem a pensar que 
devia ser mais velha do que parecia  primeira vista.
- Ol! - exclamou ela, com um excitamento evidente. - Eu estava na cozinha e no ouvi quando chegaram. Suponho que esta  Crystal. Oi, Crystal. Seja bem-vinda a 
Lakewood. Este ser um lar de verdade. Vai ver s. Ter uma colega de quarto tima. Seu nome  Janet, a garota mais doce do mundo. Ela  tmida, mas aposto que voc 
far com que seja mais extrovertida. Disseram que voc  muito inteligente. Tenho certeza de que poderemos aproveitar alguma ajuda nessa rea.
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Ela olhou para o sr. Kolton, que sorriu. Pensei que ela nunca mais pararia de falar.
-  verdade que as crianas por aqui em geral se saem bem nos estudos. Exigimos que faam os deveres antes de qualquer outra coisa. H regras aqui, mas so boas 
regras. Ah, esqueci de me apresentar. Sou Louise Tooey.
A mulher estendeu a mo. Fiz a mesma coisa, apenas para trocar um aperto rpido, mas ela segurou minha mo e afagou-a.
- Sei que se sente um pouco assustada por estar em uma nova casa, mas esta  especial. J foi uma pousada das mais populares.  aconchegante, vai se divertir aqui. 
De qualquer maneira...
- Continue! - ouvimos algum gritar.
Um garoto em torno dos quatorze anos desceu a escada s pressas. L em cima apareceu um homem alto, de rosto impassvel. Tinha ombros largos, braos longos e musculosos, 
um dos quais exibia uma tatuagem no antebrao.
- Gordon! - Louise acenou com a cabea para o sr. Kolton e a sra. Thacker. - A agncia est aqui com uma nova garota.
A postura do homem relaxou. O rosto, to ameaador um instante antes, tornou-se mais suave.
- Isso  timo. - Ele olhou para o garoto. - Faa logo o que tem de fazer, Billy.
Gordon sorriu para o sr. Kolton e acrescentou, enquanto o garoto deixava a casa:
- Temos de manter a disciplina aqui.
- Eu compreendo. Louise interveio:
- Esta  Crystal. Crystal, este  meu marido, Gordon.
- Seja bem-vinda, Crystal.
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Havia alguma coisa nos olhos de Gordon que me assustava, uma expresso animal. Olhei para o sr. Kolton e a sra. Thacker, a fim de verificar se eles tambm percebiam. 
Mas os dois pareciam alheios a tudo, a no ser  sua misso, que era a de me entregar e ir embora.
- Vou mostrar o quarto a Crystal e apresent-la a Janet. Gordon, por que no pega as malas da garota?
- Claro.
- Voltaremos num instante - acrescentou ela para o sr. Kolton.
- Est bem. Boa sorte, Crystal - disse o sr. Kolton, enquanto subamos a escada.
- Isso mesmo, boa sorte, querida - acrescentou a sra. Thacker.
No olhei para trs. Louise continuou a falar sem parar, descrevendo a casa, sua histria, como ela gostava de tomar conta das crianas sob seus cuidados.
- Todas so preciosas para ns, no  mesmo, Gordon?
- , sim - murmurou ele. - Preciosas.
Ela parou diante de uma porta e bateu antes de abrir. Uma garota pequena, com um rosto to perfeito quanto um querubim, levantou a cabea para nos fitar. Estava 
enroscada na cama. Usava o que parecia ser um tutu e sapatilhas.
- Janet, voc no est doente de novo, no , querida? - perguntou Louise.
A garota sacudiu a cabea em negativa.
- Apenas cansada de praticar seu bal?
Janet acenou com a cabea, os olhos fixados em mim, cheios de terror.
- Esta  sua nova colega de quarto, Crystal. Crystal, esta  Janet. Tenho certeza de que vocs duas vo se
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dar muito bem. Janet tambm no  uma m aluna... no , Janet?
A garota sacudiu a cabea.
- Talvez agora, que tem uma colega de quarto, no fique mais to retrada - comentou Louise.
Gordon largou as malas no cho e resmungou:
- Tenho coisas para fazer.
- Est bem, querido - disse Louise.
- At mais tarde.
Assim que ele se retirou, Louise declarou:
- Gordon vive resmungando, mas  muito manso no fundo do corao. Deixarei vocs duas se conhecendo, enquanto deso para acertar tudo com o pessoal da agncia. Fique 
 vontade para andar por toda parte e explorar seu novo lar, Crystal. Mais uma vez, querida, seja bem-vinda.
Ela se retirou. Olhei para Janet. Ela parecia muito frgil, mas tinha pernas firmes e musculosas.
- Voc estuda bal?
Ela acenou com a cabea.  uma garota tmida como uma borboleta, pensei. Comecei a arrumar minhas roupas. Janet me observou em silncio por algum tempo, depois sentou 
na cama e disse:
- No estudo mais. No tenho mais uma professora.
Olhei para ela.
- Se gosta tanto, continue a danar. Talvez algum dia arrume outra professora.
Ela sorriu. Era um sorriso bonito, ansioso em iluminar algum que lhe desse amor. Gostei dela. Talvez fosse melhor que se mostrasse to tmida e frgil. Talvez fosse 
melhor eu ter outra pessoa para cuidar, alm de mim mesma, pensei. Fui at a janela e olhei para o lago.
-  um lindo lugar.
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 claridade prpura do crepsculo, as estrelas comeavam a surgir, cada uma como a extremidade de uma varinha de condo, repleta de promessas.
Janet e eu ficamos sentadas ali, junto da janela, contemplando o cu. Tive uma surpresa agradvel quando sua mo encontrou a minha. Permanecemos em silncio por 
um longo momento. Talvez no houvesse uma famlia l fora esperando por ns. Talvez s tivssemos uma  outra como nica famlia. Talvez as nicas promessas que 
pudssemos realizar fossem as que faramos uma para a outra. No tnhamos riqueza, nenhum dinheiro, nada que pudssemos oferecer uma  outra, a no ser confiana.
Mais tarde, ela me mostrou fotos suas em traje de bal, comeou a falar sobre sua vida. No saiu depressa. Fora magoada no amor, como eu, tinha medo de confiar nas 
pessoas. Os segredos de nossos coraes teriam de ser desenrolados como uma bola de barbante, um pouco de cada vez. Juntaramos nossos passados, nossas angstias 
e nossos sonhos, at formar um casulo em que nos sentiramos seguras.
S depois poderamos voltar ao mundo.
Data de concluso da leitura: 22 de junho de 2008.
